21 de abril de 2008

com um tiro na bacia

esta noite, dormindo emborcado como um gordo babão, sonhei como sonham os desavisados, e do sonho sem pudores matei uma colega com um tiro na bacia. acordei realmente chocado, não de pronto, porque os desenrolares duraram toda a noite, ainda que tenha me levantado para ir ao banheiro mais de uma vez, retornando ao sonhar tão logo me deitasse, como se, sorrindo no travesseiro, cinicamente me esperasse. e até agora tento entender o significado de ato tão despropositado. é certo que no contexto ela merecesse, de certa forma, porém, mas nem a tenho como amiga desperto, tampouco gostaria de matá-la. de qualquer forma, sempre estive indiferente, paisagem, chamamos. mas fiquei estarrecido com a clareza de quem tão friamente meteu-lhe um tiro na bacia. precisamente na bacia. a atmosfera envolvia o cinza de meus desesperos ginasiais, dos doze anos indesejados e sofridamente crescidos (crescer é o que todos meus colegas pareciam querer, malandros, enquanto com toda a fúria de meu medo tentava me agarrar aos meus resquícios de infância), tentando acompanhar o ritmo que não queria. mas no sonho era eu já, o eu de hoje, sentindo o frio na barriga de ontem, aquele que antecedia o choro da ansiedade borbulhante das segundas-feiras que consumiam minha sanidade. matei e não corri, segui como se nada acontecesse, em meio a todos (uma sala cheia) que me olhavam, quer dizer, tinha em mim o acontecido, mas como em sonhos nos vemos de cima, as vezes eu parecia ignorar, pois não pensava lá como penso eu; nos sonhos somos em separado, partes diferentes que entendemos como nós, no caso eu. (uau, acabo agora de conectar aqueles pensamentos construídos em paredes diferentes, se não é o pássaro júlio, meu eu vermelho). de qualquer forma, eu até saí no jornal, manchete e tudo mais. a casa do meu pai era diferente.

Um comentário:

maíra disse...

ahnn então julio é o seu eu vermelho....há!