9 de abril de 2008

a gente começa a acontecer no banheiro

o banheiro é um lugar esquisito, mas talvez o conheçamos melhor que qualquer outro lugar da casa. o novo banheiro me permanece um mistério, mantém-se no limiar da normalidade mas ainda assim resiste a entregar-se por completo, como que desajustado em seu próprio reconhecimento. neste banheiro em especial, é comum me dar por desperto enquanto me surpreendo mijando sem ter vontade, e logo em seguida me cai o prazer da mijada que verte barulhenta, borbulhando a água da espera e levantando o cheiro açucarado que sucede o estalo, subitamente capotando minha consciência fugida de anteontem. dos escombros minhas pernas doem e minha vista não foca, minha boca está virgem de sono e meus calcanhares estalam conforme meu corpo se empilha de volta ao vertical. no banheiro os palpites começam a chegar, a trilha sonora já estava tocando, e, quando vejo, da minha curta noção de mim mesmo restou apenas a pressa, os compromissos, as presenças. nunca mais estarei sozinho em mim mesmo, não até que me esqueça de como foi bom ser pego desprevenido.

Um comentário:

Tito Peçanha Leitão disse...

nossa, que fantástico!
gostei mesmo...