13 de abril de 2008

no varal do banheiro, o monstro cerebral

no segundo quadro da minha estória de banheiros, pensei naquele momento que se segue ao isolamento, quando nos damos conta da ausência das presenças, a estrañable transparencia que fica no que não ficou. sem perceber a espontaneidade da inconsciência, automatizada na reação à sozinhez, a cabeça simplesmente pula o gancho da consciência e desliza ao encontro de pequenas distrações do azulejo que possui uma marquinha olho-de-peixe na ponta do esmalte e do puxador olhado de baixo pra cima na forma de um cogumelo inoxidável, sem graça na versão inox, mas tão surpreendente quanto possível, inocente no reconhecimento do que se encontra à nossa volta, nos olhos menos preocupados, desfocados de tanta certeza, quase infantis, deixando surpreender-se nas formas inusitadas das cercanias. o formato peculiar na cuba por baixo da pia ouviu os barulhos do além-mundo de nossas entranhas e cuspiu um borbulho de baba branca. o pequeno monstro de dentro de nós sente-se muito à vontade ao roubar nossos olhos e nos fazer ver nos objetos imediatos os devaneios tresloucados, incoerentes nas pessoas esclarecidas que temos por nós. nossas pernas depositárias se tornam pedaços amarelados e disformes de carne peluda e doentia, amarrados à nossa própria roupa limpa, amarrotada entre a querida privada dos nojos hipócritas das púdicas discrições e o azulejo dos costumes gordurentos, todos unidos pela povoada argamassa da sociedade de culpas esterilizadas à base de pato-purific, a democracia das casas de família. encostamos a roupa sem dó nos exatos lugares dos quais tentamos histericamente mantê-las afastadas em nome de produzir as mornas certezas que negaremos por toda a vida. o momento perfeito para se notar que, da janela impossível, distante metros e metros da rua ensolarada, destaca-se o penetrante e certeiro raio de sol, acudindo as polianas de dentro de nós, cegando por um instante os pensamentos de formas tenebrosas, rasgando o fio do pensamento e costurando-o nalguma outra paragem de nossos varais cerebrais.

3 comentários:

Tito Peçanha Leitão disse...

eu gostaria de saber onde os zamboni aprenderam a usar impossível do mesmo jeito...

seria alguma música daquelas que viram inatas?
eu queria uma análise estruturalista disso.

Yuri Machado disse...

entro diariamente aqui, Dan-Dan, mas em geral eu o faço de maneira silenciosa. é que eu não tenho uma foto pop arte ao lado do meu nome..

no mais, meu Deus, você está escrevendo absurdamente bem.
alguns detalhes da composição dos textos me agrada especialmente.. algumas até bobagens, como o cheiro do mijo "adocicado".

dos desenhos eu não falo, só que perdem um pouco scaneados, sempre.
o bom é que eu tenho acesso a eles diretamente.

daniloz disse...

legal yu-yu, fico realmente feliz de saber que você tanto visita como gosta das amenidades que deixo por aqui, hehehe.
aliás, vai pro sítio com a gente, certo?