18 de abril de 2008

o comedor de minhocas

neste terceiro quadro da estória, tinha escrito uma introdução mais ou menos assim: 'enquanto a mijada se fazia ruidosa, fui tomado pela paz de quem quer o momento cada vez mais longo, porque assim ele deixa de ser momento e pisamos naquele limiar dos encontros em que tanto faz estar desperto ou não, pois não estamos em lugar algum. mas da mesma forma em que o pré-coisa deixa de ser pré para se tornar coisa, a tensão superficial se rompe tão logo decidimos tocá-la pois não é feita de decisão, e do rebento minha visão se interrompe de onde estava deixando apenas o farfalhar das penas, e é por isso que acordamos com os olhos cheio das poeiras dos espanadores da manhã. dizem que se olharmos rapidamente para a janela, pode ser que tenhamos a sorte de ver o pássaro de onde saímos, da mesma forma como, na paúba de meus oito anos jurei ter visto o raio verde dos pôr-dos-sóis, aquele que é tão raro de se ver que só se vê uma vez na vida, e na minha sorte o vi usando os pinicantes chinelos do tom e jerry, os mesmos que perdi na outra mureta do dia do vendaval, e por isso mesmo não pude esquecer. minha mãe também viu e hoje devo perguntar-lhe se ainda se lembra do raio verde que o sol faz quando se põe e temos oito anos'. isso vem de algum tempo já, esta sensação de se ver de cima, como se um serzinho estivesse pousado na minha cabeça, com toda a naturalidade de alguém que por algum motivo não está dentro da caixa habitual pois a vê de cima, assim como a viu várias vezes sabendo que é impossível tê-la visto. ainda assim, foi ele quem se esvoaçou pequenino, me fugindo sorrateiro depois de comer todas as minhocas da minha cabeça.

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