5 de abril de 2008

o cosmonauta dos dias de chuva

este desenho eu fiz em 1994, na paúba, daquelas tardes chuvosas de uma semana inteira de aguaceiro, depois de chover tanto que os caracóis nos fizessem acreditar que pudessem mesmo se arrastar pelo ar e nos surpreender nos lugares mais ingratos pensando que não os notaríamos, com aquele jeito de bichinho ranhento sem se desgrudar de seu rastro de baba venenosa. à minha mãe não lhes cabia tal destreza, a não ser que uma onda os tivesse trazido, dizia eu, mas nos preocupava mais nossas toalhas de banho que mais molhavam que secavam pois pareciam ter ficado estiradas no varal para conter o avanço do mar. o piso amarelo parecia um espelho lotado de grãozinhos de areia daqueles sujos e escuros, mas que na verdade parecia apenas se preocupar em derrubar as pessoas que, entediadas, puxavam seus reflexos com um rodo de plástico. o lugar mais disputado da casa era a rede perto do cogumelo que aparecera depois dos dois primeiros dias de chuva, quando já ninguém acreditava ser possível ainda haver mais água sem que o mar não se diluísse e a praia não sumisse porque toda a areia escorreria para o mar. mas da rede podia se acompanhar o endoidecido cogumelo crescendo a olhos vistos, minúsculo, desde o inexplicável brotamento, passando pelo alargamento de uma base cheia de bolinhas peçonhentas, dizia minha mãe, que parecia adorar este deságue de criaturas , culminando no espichamento de um véu do cucuruto esbranquiçado que parecia uma rede de pesca armada pela corrente marítima que varria pela nossa varanda, molhando os pés e brotando pelas madeiras até chegar aos estofados e borrifando nossa rede que já fedia muito mais que muco de caracol. foi neste contexto que peguei a folha sulfite curvada de água, depois de ceder ao fato de que o tédio poderia ser desfeito se nos atrevêssemos a buscar algo que fazer. era nos dias de chuva que minha mãe enlouquecia, mas que também conseguíamos inventar uma série de brincadeiras; santo lego, devia ela pensar. a folha parecia impermeável ao lápis molhado, e se rasgava se tentássemos pintar algum desenho. ainda na primeira série, com toda a maturidade dos meus absurdos oito anos, decidi que não mais pintaria um desenho, gostava deles assim, preto no branco, cinza, na verdade. mania esta que ainda não passou por inteiro pois o mono ou dicromatismo sempre me fascinaram. por este desenho tenho um carinho especial, talvez por lembrar que tínhamos que por o papel sobre uma revista para que o lápis não o trespassasse sempre que encontrasse a junção das tábuas da mesa. sempre me surpreendeu sua composição, sua seriedade, coisa que percebi também nos meus oito anos, mas que para mim só serviram para infernizar minhas tentativas subsequentes de repetir tal sucesso. coitada da minha mãe.

2 comentários:

Tito Peçanha Leitão disse...

Deus!
lapso de inconsciente coletivo.
e diacronismo exorbitante...

maíra disse...

fantástico como o texto
e o desenho conversam.
apesar dele não mostrar a chuva
ou o tédio, mostra como nós,
quando crianças, lidávamos
com a sensação de tristeza,
vazio e inquietação nestes tempos
e como, ao mesmo tempo, virar
um piloto de nave intergaláctica numa folha de papel úmida e amassada era a coisa mais simples do mundo.