6 de abril de 2008

o papel de couro-de-girafas-da-índia-do-norte

um dos primeiros resultados posteriores ao cosmonauta dos dias de chuva que eu senti ter gostado pela surpresa que me causou foi este desenho que fiz despretenciosamente numa aula aleatória uns 12 anos depois, já na faculdade, com um lápis e uma caneta pilot descabelada que emprestei de algum colega de classe. meu caderninho retrô pautado da coca-cola recebeu então este encharco de tinta dúzias de vezes maior do que era recomendado para não massacrar suas folhas de papel semitransparente, mas acho que o simples e determinante fato dele não esperar este afogamento em tinta preta que me permitiu fazê-lo sem medo. pode ser estranho dizer isso mas eu tenho medo de certas coisas como o papel que parece ser mais especial que qualquer coisa que você possa fazer com ele mesmo que sua vida dependa disso. desde pequeno sofro o logro de ter uma mãe e um pai arquitetos, conhecedores dos mais variados e surpreendentes tipos de papel, prontos a ceder suas maravilhas aos seus filhos desenhadores. por que não faz este seu superdesenho numa folha maior? perguntava minha mãe, oferencendo-me um colossal papel de couro-de-girafas-da-índia-do-norte ou qualquer coisa do tipo, que era maior do que eu, maior que minha espontaneidade, muito além de uma coisa que não se pode controlar que é a criatividade e o fato de não se sentir a vontade com um troço daquele tamanho. acho que estas linhas azuis atravessando as páginas destes tilibras meia-boca têm uma dimensão inesperada ao fazer romper esta cara de aguardo que têm as folhas de papel especiais, tirando qualquer dignidade a não ser a de ter tanta dignidade quanto os outros e talvez por isso mesmo conseguirem receber muito mais do que se espera. as folhas grossas não deixam que eu as atravesse, não se curvam com a tinta, não se podem ser arrancadas pois sofrem mais fundo, pois sofro mais fundo quando tenho uma pela frente. tendo a crer que as distorções nas minhas perspectivas surgiram da minha exigência e perfeccionismo ilógicos, quase doentis, do medo de não desenhar à altura do couro-das-girafas-da-índia-do-norte, ou simplesmente à minha altura. do que eu esperava ser a minha altura.

4 comentários:

Tito Peçanha Leitão disse...

perfeccionismo extrapolínico.
exato.
medo de não estar à altura da proposta talvez. Talvez não ver no papel a grandez do que está na cabeça.
do que é a cabeça.
terrível, sei lá.
tenho a mesma sensação, mas acho que prefiro ela à aceitação da mediocridade estética que tanto vemos...

Beá Meira disse...

meninos:
Peguem uma folha de papel couro-das-girafas-da-india-do-norte e façam urgentemente um desenho bem medíocre por favor.
Depois conversamos sobre o futuro.

Alexandre disse...

isso me fez lembrar de William Kentridge, um artista sul-africano q eu vi na aula do agnaldo esses dias... ele fazia alguns desenhos em cima de livros que tinham algum significado para ele, como memórias póstumas. talvez seja um pouco o oposto da sua idéia, mas mesmo assim eu lembrei dele.

tem umas animações legais dele no youtube.

Lays Laine disse...

eu diria q o colossal papel de couro-de-girafas-da-índia-do-norte é pouco pro Danilo