13 de maio de 2008

charutos cubanos

'não é curioso pensar que deixamos por ai um pouquinho de nós mesmo todos os dias', pensa o garoto ao ver o famoso canudo cubano que deixou na porcelana brilhante que era bem mais branca que seus próprios dentes. pisando no tapete de zebras ele percebe o quão diferente pode ser o toque do azulejo, porque na casa de sua avó o chão do banheiro era o mais frio do mundo, tão frio que subia pela privada e nela não se podia sentar, porque a madeira lhe travava os dedos e imobilizava o pinto arroxeado que nem um casulo encolhido. era inevitável pensar que a camisa cor-de-berinjela tinha a exata e mesma cor do pinto que saia da calça na hora do mijo, e isso fazia com que as berinjelas tivessem cor de pinto com frio. o piso frio do banheiro era na verdade a presença transparente da avó, porque as avós não estão de brincadeira quando se trata de crianças peladas por ai, e a frieza da tampa da privada, nos gélidos domingos de manhã de quando o trem ainda passava e as galinhas corriam pelo terreiro onde não podíamos pisar porque os galos, os galos e os perus são muito maus, podiam nos atacar, e reduziam a nada a já apenas incipiente sexualidade destes meninos de poucos anos que nem se quer imaginavam que mal podia haver num pinto roxo que servia pra fazer xixi e mais nada, horas. só que dos dedos gelados que faziam as coisas somente pela memória que tinham delas, porque era impossível que sentissem de fato alguma coisa dado o frio que lhes roubara a visão de dedo, restava sempre o mau-humor de quem acorda cedo porque tem que cagar neste frio desgracento, pois deus nos fez diferente das mulheres que têm que sentar pra tudo e por isso mesmo já estão acostumadas, nos fazendo ter que sentar só algumas vezes para destas tirar o proveito de nosso espanto e rindo de nossa cara ao ver quão engraçado pode ser um menino sentando rápido pra cagar na coragem se vencer de pronto o gelado e aguçante branco tampo de reprovação que deveria sentir só de estar pelado, tal qual a palmada que se prefere levar logo ao invés de sofrer esperando. porque tem certeza que foi o pito de sua avó que subiu do chão para a tampa da privada e deixou ela tão ruim assim.

Um comentário:

maíra disse...

hahahhaha
simplesmente fantástico
além de deixarmos "charutos cubanos"
por este mundo afora, acredito
que deixamos tantas e tantas
coisas por aí...imagine se
os pensamentos que temos fossem
deixados como fumaça e pudessem
ser vistos como desenhos?