25 de maio de 2008

fotografia

estou sentado numa cadeirola de madeira esperando para ver quanto mais eu aguento as minhas lentes colando nos meus olhos até que desista de enrolar para ir para o banho porque hoje é domingo e amanhã já é segunda e eu já não estou domingo porque estou em como maldições será a minha segunda-feira. reparem como estão atreladas as formas mais usuais do ser do estar; desde quando se começa a pensar nas coisas antes delas serem, o cenário já montado em nossas cabeçorras muito antes de estarmos postos nele, de sermos aquilo onde estamos. há pouco ignorei minha mãe por querer nos mostrar como a lua - oh, olhem esta lua - estava formidável do lado de fora da janela enquanto eu assistia a qualquer baboseira na televisão das mesas de centro lotadas de pacotinhos e embalagens vazias que nos fazem pensar o quanto nós disperdiçamos de plástico todos os domingos-e-feriados-moribundos. porque o domingo já nasceu moribundo e tenho certeza de que disso vivem os analistas e psicólogos, das nossas segundas-feiras de sol enquanto no domingo vemos amigos suicidas estatelados em nossas retinas tentando explicar para os incrédulos parentes a simplicidade de se imaginar porque diabos o pobre infeliz se jogou por ai sem sequer cogitar que esta estória de antever é que corrói o estômago de toda alma que conheço. não adianta se isolar, já está tudo ai dentro mesmo (uau, está passando lá em baixo um daqueles camiões de 100 metros de comprimento e 200 rodas com vários carros-insetos-piscantes da CET em volta carregando alguma peça gigantesca para alguma obra maior que nós, como vejo em todos os domingos que antecedem segundas-feiras de sol nesta tela de computador que não é competição para a paisagem que tenho do meu lado, mas ficar admitindo isso por ai não é muito legal, senão amanhã terei que ouvir um estárá da minha mãe que queria me mostrar a lua de qualquer jeito), nosso akira. o problema é que nossa cabeça nunca está onde está nosso pescoço (ai, não vou entrar em discussões físicas sobre este assunto), está sempre em outro porém impalpável. o diabo está em perceber; enquanto não percebemos, somos fazendo, depois do plec, ai só estamos fazendo. não sei se o que estou dizendo soa absurdo, mas acho que é da minha geração a impressão do esfacelamento constante de tudo que fora algum dia legal, bem à nossa frente, só para que tivéssemos o comparativo, para que pudéssemos pensar a respeito. e pensando, o trem passou e as pessoas já entraram, o lugar que estava vazio se preencheu, da foto que se insinuou, a paisagem se moveu e o trem já vai partir. estamos parados num trem e somos os únicos parecendo não saber por que diabos estamos ai, com uma máquina na mão que significa apenas o quão lerdos fomos em tentar fotografar.

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