29 de maio de 2008

o varal das coisas

eu estava de moleton agora há pouco porque estava frio, e, com a mesma naturalidade de quem veste um casaco que me será enorme desde que tinha onze anos, tiro-o com aquela pequena arrogância de quando tinha uns sete e jurei nunca mais sentir frio. foi numa aula de horta, na primeira série, quando ainda não existia esta baboseira de primeiro ano, e, sem mais nem menos, tirei minha blusa num daqueles dias em que a simples imagem de alguém sem um casaco forrado nos deixa com os braços arroxeados e finos, quando o relógio fica mais folgado no pulso pontudo, todo coberto por aquelas bolinhas que são na verdade o arroto do arrepio, o famigerado calafrio do conto do homem que não sentia calafrios, mas que eu adoro passar a mão bem rápido. logicamente a professora teve um treco lá na frente, pois sentávamos naqueles bancos bem altos em volta de umas mesonas de concreto e tijolo, com uma pia que nunca soube porque diabos ficava lá, já que éramos proibidíssimos de tocar. fiquei uns oito anos sem sequer vestir uma calça, era preciso me amordaçar e dopar com alguma convicção suficiente para desligar minha incoerência cerebral e permitir o desatino de vestir uma calça comprida. eu simplesmente não as tinha pois me faziam sentir aquele desconforto piniquento de quando sua mãe o obriga a vestir sua camisa polo engomada com aquele cheiro de roupa escondida em fundo de armário que você odeia só de ver sem querer para ir arrumadinho à festinha, que, como sempre, acaba em correria, sujeira, suor, barriga-lotada-de-porcaria, cara-preta e pé mais sujo do mundo, de quando inutilmente tentamos matar a sede da tarde escaldante de correria naqueles refrigerantes propositalmente mornos daqueles copinhos brancos de plástico molenga. o casaco tinha que ser leve, quase nada, porque não só não o usava, como fazia de tudo para esquecê-lo em casa acidentalmente. às vezes eu até sentia frio, mas daí a admitir qualquer arrependimento distava umas seis vezes a ida-e-volta à plutão, porque os planetas eu já conhecia, assim como a ordem em que invariavelmente se apresentavam: mercúrio, vênus, terra, marte, júpiter, saturno, urano, netuno e plutão, que era muito longe. mesmo. urano era meu preferido pois seus anéis giravam em direção diferente dos 'manjados' saturno e netuno, e eu acreditava ser assim porque ele foi atingido por um meteoro muito gigante que girou ele de lado. deve ser como tentar lembrar a voz de alguma pessoa, por mais próxima que seja, e se perceber incapaz de realmente lembrá-la, não sei se é algo da minha cabeça em particular, de quando, no varal dos post-its da memória, um emaranhado enorme se enrola como aquela extensão de cujo fácil desenrolar depende todo o nosso bom-humor, perde-se em objetividade, mas com certeza muito mais do que esperávamos termina em nossas mãos. barbantes com clipes e papeizinhos. a isso se resumem nossas adoradas inteligências.

Um comentário:

Yuri Machado disse...

refrigerantes propositalmente mornos daqueles copinhos brancos de plástico molenga

que memória tátil!