11 de junho de 2008

do achado e do perdido

semana passada, desembesto pela sumaré íamos eu e minha azul-magrela tentando esquecer os traumas da semana anterior, que me deixara as bolinhas do rolamento traseiro a pular por ai e o pneu mais murcho que os espetinhos que ficaram seis meses guardados na passagem secreta do estúdio 1 em 2003 e depois foram postos a venda na mesinha como bem-passados. de qualquer forma, no mesmo local de minhas desgraças topei com a desgraça dos outros largada neste buraco negro de sorte. porque existe um lugar, aprendi quando pequeno, no reino-perdido-do-beleléu que é para onde as coisas vão quando não estão em nenhum lugar, e tenho certeza que esta só pode ser uma de suas entradas pois tudo o que vejo na rua parece estar neste lugar.

e lá estava, esperando meus olhos distraídos se baterem com alguma pedra largada na zebracross poeirenta, um achado que devia estar perdido há apenas muito pouco; estatelado no fundo do poço de sua dignidade, um aparelho telefônico celular da era moderna jazia emborcado na sarjeta dos destroços, posto de lado por famoso leito carroçável que insistimos em chamar de rua já que a guia de hoje só serve para conduzir o suco cancerígeno que vaza dos carros para o reservatório de chorume que é o rio, esperando que um dia seja isso que nos dê dinheiro e dignidade em nossa condição de super-terceiro-mundistas.

bem, mas lá estava o tal do celular, de superfícies impecáveis absolutamente dispensáveis, porque não são os detalhes que vemos nestas horas, e sim a imagem maior de um destroço qualquer com forma de telefone caído pelo caminho. de nada adianta seu modelo, cor, preço, acabamento de strass com polimento glitter de centelha luminosa de peixe perolizado e o caralho, estava lá, sozinho, ralado, avariado como uma carcaça qualquer, largada nestas condições que só acontecem quando não estamos vendo porque visto, só nos resta o horror de topar com este bem de tão alta estirpe misturado àqueles pedaços de pneu de caminhão que foram e voltaram da bahia mais vezes do que gostaríamos de saber e parachoques de gol meio desbotados, com elásticos de prender escapamento e qualquer coisa absurdamente suja, tanto que temos até esta palavra especial para designá-lo: imundice. acho isso engraçado, não interessava que modelo era, se era bom ou ruim, novo ou velho, não me interessou por isso, interessou-me o reconhecer de um telefone em sua forma mais original, o que significava inclusive a minha surpresa de encontrá-lo num local tão impróprio. bem, lá estava o bendito celular e minha dúvida de parar ou não para pegá-lo, pois tempos atrás achei dois reais na mesma sarjeta e pensei que poderia ser estranho me tornar o mais novo bike-catator da paróquia, embora tenha parado para acudi-lo. era mais chique do que eu esperava, daqueles nextel reluzentes, que eu peguei e enfiei pelo alforge da minha bicicleta porque não fazia idéia do que fazer com ele. tanto que esqueci.

quando cheguei no montanha, ouvi um barulho estranho, uma musiquinha bizarra, qualquer uma que não fosse a do meu celular, mas só lembrei do maldito depois de colocar a mão para dentro da sacola a fim de procurar minhas chaves, que são a verdadeira materialização do velcro, não saem do seu lugar a não ser com mais jeito do que estamos dispostos a dar nestas horas. atendi, o cara perguntou quem era, é o danilo, achei seu celular na sumaré, deus te abençoe! me disse, onde está que passo ai para buscar. te encontro no sesc pompéia, porque era para lá que eu estava indo depois de dar aquela alongada e trocar da roupa de guerra para a de negócios, afinal, sou um businnessman, preciso de 10 minutos, claro, já vou pra lá, estarei de capacete amarelo e calça camuflada. que ótimo pensei, nunca achei que fosse tão rápido assim, porque na hora em que decidi pegar o aparelho no chão não me tinha passado pela cabeça que ele pudesse funcionar e mais, que alguém estivesse de fato atrás dele tão logo. parece meio idiota, mas acho que por tê-lo achado assim tão desgarrado não me pareceu que fosse de alguém, mas nada me pareceu tão lógico.

no caminho para o sesc, fui tentando imaginar esta figura de um motoboy gago, ah, esqueci de mencionar que o cara era gago, e me ligou várias vezes nestes 10 minutos para ter certeza de que eu estava indo mesmo, vou sim, pensei, já não disse que ia? vestido com um destes casacões-pretos-esconde-tudo, meio sem naipe e tal. note aqui que não se trata de preconceito algum, eu estou no mesmo barco que os caras quando se trata de transporte e me visto muito mais mendigamente do que eles. imaginava-o mais ou menos nos conformes motobolísticos, meio baixo, alternando do magrelo ao gordito, com aquele bagageirinho atrás da moto meio velhusca, e óculos de sol meio duvidosos, este tipo de coisa, se ele teria a barba mal ou bem feita, aquela cara de bandido ou aliviadoramente amigável, enfim, coisas que pensamos quando estamos prestes a encontrar alguém que não conhecemos.

eis que chego ao sesc. de calça camuflada e capacete amarelo só vejo uma pessoa; um cara de dois metros de altura, bombado à la american chopper, com uma camiseta extra G coladinha no peitoral de halterofilista, absolutamente tatuado, os dois braços inteiros, cabeça raspada meio skinhead. mas o cara estava sorrindo loucamente, afinal, o celular que depois ele me diria valer 2500 reais estava de volta na mão dele. ele ainda tentou me pagar uma cerveja, uma coca-cola, me disse, mas recusei dizendo que nós dois estávamos no mesmo barco, e que esperava que fizessem isso por mim, coisa simples. o cara era adestrador de cães, sabe como é, anda por ai de casa em casa pegando os cachorros e amestrando. curioso foi pensar que este mesmo cara poderia ser o maior pesadelo de alguém por ai, mal-humorado, mais fodido do que nunca porque além de tudo teria que pagar mais a grana da merda do nextel. é capaz de eu ter evitado uns assassinatos este dia.

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