13 de junho de 2008

o judeu errante

hoje vi o judeu errante atravessando a rua como quem nunca em sua vida acreditou num automóvel, com as barbas e o cabelo indiferenciáveis entre si, absolutamente brancos, trazia na cara a despreocupação e o descaso de alguém que nunca morre, porque desde que mandou que cristo caído saísse da frente de sua sapataria vem esperando pela volta do enviado celeste, e agora fica por ai, vagando qual zumbi datado. eu já vi um zumbi, e este não o era sem sombra de dúvida. cruzou a rua bem na minha frente, os passos firmes e enormes, naquela dureza de quem já andou demais por lugares que hoje não importam e que em nossa existência já deixaram de ser lugares, porque uma coisa precisa deixar de ser ela mesma para ser outra depois de um tempo, afinal, isso é justamente tempo. usava a camisa branca de um defunto, engomada por seu próprio suor, já ficando meio transparente por sobre a calça daquele tecido cinza que só as calças dos muito velhos ainda podem ser, ora cobrindo ora descobrindo alternadamente os sapatos pretos engraxadíssimos, enquanto de tão velho a todos deslocou a pequena chama da vela interior na corrida inesperada. virei a esquina e vim parar em casa, não a minha casa, mas a casa do montanha, que não deixa de ser uma casa mas é também um escritório. os pneus da minha bicicleta estavam ainda quentes, não passara muito desde o estampido seco do portão quando, num aparecimento mentalmente anunciado, vejo por entre as barras o judeu errando. trazia consigo uma lata de cerveja azul que atestava seu saber das coisas da vida, pois não são todos que não podem morrer. da mesma forma como esperava vê-lo ali, depois de tê-lo visto cruzar a rua de supetão e tê-lo trazido comigo em meus pensamentos, entendi que logo ele não mais estaria. passou de um lado a outro do portão enquanto eu só pude vê-lo por entre as barrias quadradas, judeu, barra, judeu, barra, até chegar ao ponto onde aparecera. na expressão a pressa de quem não tem aonde ir e por isso mesmo está com pressa, mas em seus olhos aquele apego de velhinho às casualidades que nem são mesmo casualidades. porque nada na vida é por acaso mas por fim. do judeu errante tive minha parte, vi alguém que não morre, mas que é velho para sempre. deixou em mim esta pitada de desespero que deseja não morrer, só por um tempo, a saber como seria, mas também o desterro de se ver sempre atravessando ruas por ai. minto. somos nós que atravessamos sua existência linear. e como as ruas não são lugares, são caminhos vazios, tão logo deixei meu lugar e saí para meu almoço, topei com esta marca da existência: a lata de cerveja deixada sobre o pequeno poste inclinado, daqueles espetados para não se subir na guia. passo por ali todos os dias, e nunca o havia notado, lembra-me das portas de pedra.

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