6 de julho de 2008

do pútrido

estavamos eu e minha bicicleta, o maior atrativo de epopéias dos meus périplos asiáticos de ultimamente, subindo uma piramba lá perto de casa, eu vinha da fau com aquele barulhinho tica-tac-rrrrrrrr de quando seu câmbio está na verdade é bem fodido, 'isso ai não tem mais jeito, bixô', disse o honorável luciano, cara que menos cobra pelo melhor serviço que conheço quando de manhã passei lá na casa-oficina dele para ver que diabos tinha acontecido com o 'motorzinho' destas bicicletas de hoje em dia. 'isso ai já era, quem sabe eu possa encontrar um novo para você'. 'por favor', disse com aquela sensação dos domingos à noite, que são na verdade segundas-feiras de sol fantasiadas de depressão e bolinhas ingeríveis de desespero. ia ficar na mão, certeza. 'não, olha, pode andar com isso ai deste jeito que pior não fica', 'certeza?', 'certeza, sabe como é, não posso garantir, pode estourar daqui a cinco metros ou você pode voltar aqui daqui a um ano com o treco ainda rodando'. 'ah', eu disse, então beleza, vou seguir barulhando por ai. quinta-feira foi um dia de andar devagar, portanto, curioso, porque desascostumamos a andar devagar, pelo menos eu, e curioso como devagar estamos mais suscetíveis aos outros... bem, lá ia eu devagarando na minha piramba, barulho, barulho, barulho, todos me passando, paciência, se eles soubessem que só estou devagar porque andei rápido demais ultimamente, mas que diferença faz, penso em seguida, estou devagar e pronto, subindo e subindo. de repente um carro me acompanha no meu vagar, tem um senhor dentro, parece me reconhecer, é o oreste, pensei, nosso professor da pena, que droga, é um cara que é ruim, sinto pena, e pena é ruim porque vem de uma coisa de se reconhecer no fracasso alheio. bem, prefiro pensar que ele apenas tinha me reconhecido, reduziu a marcha e me alcançou, baixou o vidro, não era ele. 'por acaso você que é o sérgio?' acho que minha cara de espanto respondeu à pergunta dele. 'putz, é muito parecido com ele'. fiz cara de quem não está muito interessado, disse que não era mesmo este tal de sérgio, ele acelerou o carro e pensei que era só mais um daqueles encontros aleatórios de gente que não se reconhece direito. que azar, o carro reduziu de novo e eu o alcancei. previ no sorriso do infeliz o pior, sabemos das coisas um pouco antes delas acontecerem, sempre foi assim comigo, sempre segundos depois do prazo para uma reação, sabemos, apenas, mas não adianta mais. do vidro abaixado vejo o falso-0reste dizer: 'você é muito gato, cara'. pronto, explosão, merda no ventilador, por que diabos eu mereceria ouvir uma merda destas de um merda destes. o restante do meu caminho lerdo não existiu por causa do incômodo gerado por tal importúnio. não é coisa que se diga, senti-me como uma garotinha de sete anos andando pela rua quando gordos oferecem-lhe doces repugnantes achando que existe alguma coisa de atraente em ser um velho punheteiro. cada uma que temos que ouvir, sei que preciso consertar minha bicicleta o mais rápido possível, esta coisa de ir mais devagar só fode!

2 comentários:

Bruno K disse...

vivendo o novo.
bem, pode parecer repugnante a você, mas...eles precisam satisfazer suas vontades sexuais. e você não é nenhuma criancinha ingênua para não saber o que querem. portanto não foi algo maldoso.

daniloz disse...

não é pela maldade, acho que a maior questão aqui é se colocar no lugar dos outros, nunca nenhuma menininha te disse 'não falei como era ruim?! agora você já sabe como nós meninas nos sentimos na rua'. e ser a menininha não é necessariamente agradável.