6 de julho de 2008

um dia na terra

era velha, a princípio não tinha nada demais, às vezes deixo minha mente preconceituosa voar na frente para eu ver até onde vai e então decidir se preciso ou não reprimí-la, era velha e muito gorda, usava uma calça horrenda daquelas oncinhas fake muito zoadas que não sabem se são onças ou zebras num tom meio bege daquelas capotas de vinil de carros muito antigos em baixo relevo. aposto que tinha a mesma textura grudenta de borracha velha, aquelas calças que são pouco elásticas e por isso mesmo estão forçadas ao extremo em fazer caber um círculo obtuso e monstruoso dentro de um pobre e coitado quadrado indefeso, bem, certo não pode dar. mas entrou na minha frente esta velha repugnante, aparentemente apenas repugnante, e bem na minha justa frente da fila do prato rápido do sesc pompéia, minhas experiências de comer olhando para os lados de quintas e sextas-feiras antes do montanha. ela não ia entrar, mas eu pensei que horror seria se ela entrasse e ela se desviou de seu caminho desterrado para cumprir esta função que tão descaradamente desejei que ela não ocupasse. e lá ela entrou, depois de ter sido chamado de sérgio e xavecado por um oreste desprezível, eu entrava na fila atrás de um balão murcho e pesçonhento, apenas meio cheio do budum de não se tomar banho há vários meses, somado às dobras rançosas de uma manteiga que já saiu da validade e foi deixada ao sol e à sombra por diversas vezes, assim para recriar o leite sulfuroso das poças de chorume que vazam daqueles sacões pestilentos das baladas mais badaladas, do vômito das menininhas anoréxicas que vomitam seus próprios estômagos, era a velha do lodo. porque nas caixas de passagem das fossas sépticas existe um lodo que se acumula no meio dos seixos do filtro, um lodo que é merda velha, e que se acumulava nos poros de um cu peludo que subia até as metades das múltiplas costas que lhe escorriam do pescoço. a velha era o cóccix em pessoa. era o sebo, era a mulher que paria aranhas. a fila ficou com um furo, um buraco que contrariava sua própria lógica, pois entre eu e a velha tive que criar um abismo imune ao cheiro e à ânsia, à aversão mais primária que podemos ter: aparência e cheiro. e esperavam que eu almoçasse depois disso! a velha tinha barba, pêlos mais grossos que os meus saindo-lhe pelas orelhas, perfurando-as como piercings primatas, trazendo para fora os flocos de cêra tal qual pólen esperando a fertilização de tão habitada flora. na fila as pessoas estranhavam o buraco, me faziam caretas e eu tratava de me esconder por trás de meus recém comprados óculos escuros, ainda estou me acostumando a usar estes ai, tentando fazer com que o filtro marrom das lentes filtrasse também o odor de cu de babuíno que tinha esta velha de bunda azul. cheguei ao caixa, súbita felicidade, a velha seguiu adiante furando a fila com sua barriga dobrada para dentro da calça, das dobras fazendo um bolso, para quando estiver pelad poder enfiar a mão nos bolsos, semeando ainda mais repulsa enquanto eu me atinha a uma inexplicável calma em não achar meu cartão na hora de pagar, ao ver diversas pessoas servindo de muralha ao meu mais inescrutável mal. porque tem dias em que os demônios saem do inferno para dar uma voltinha e se aproximarem mais de seus pecadores, e com dois destes cruzei num só dia, pois desde sempre uma coisa depende da outra.

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