21 de dezembro de 2008

minhocão

hoje fomos passear pelo minhocão, forma interessantíssima de 'resolver' os problemas de deslocamento na cidade. não há ruas suficientes? - ora, construa por cima! a dinâmica do apressadismo justifica esta obra que concretiza os desejos do motorista; está com pressa?! passe por cima! e qualquer outro trocadilho infeliz que reúna as palavras burrice, elevado, equivocado, imediatista, autoritário, degradante, humilhante, funcionalista, peçonhento e cancerígeno. o surpreendente é que num domingo ensolarado de trinta e tantos anos depois as pessoas apareçam em suas janelas para limpar a poeira gordurenta que se acumulou durante toda a semana, sorrindo, felizes, claro, não há barulho, só pessoas alegres passeando com seus cachorros e bicicletas tipicamente felizes. é que a rua encosta em suas janelas mas mas não em suas portas, é visual apenas. talvez o ponto mestre, a sacada deslumbrante do 'ensaio sobre a cegueira' do meireles foi por o grupo cego passando tal qual retirantes por cima do minhocão, encontrando na cidade sua mais irônica manifestação de cegueira. o sol turva o ar próximo à pista e passamos como turistas em nossa própria cidade. eu confesso que tenho certa vergonha do meu conhecimento sobre são paulo, não sei se me desinteresso, se evito, sei que há aproximações que ressucitam interesses que o academissismo tratou de afastar. não tenho muito saco para teorizar, é impossível para mim decorar ou sequer lembrar de ruas cuja história não conviveu comigo, mas sentir a cidade que eu tinha como linear fazendo uma enorme curva e aproximando duas pontas por uma enorme ponte que transpõe o limbo cartográfico em minha cabeça despertou um enorme carinho por esta cidade que não consigo ainda chamar de minha. o minhocão nos pôs em um contato esterilizado com o centro da cidade; não andamos pela rua, andamos sobre ela, andamos sobre um parque que se fez de uma das mais escrotas manifestações rodovialistas e perversas que conheço. as perspectivas são uma coisa alucinante, eu recomendo, é mais perto do que parece.

3 comentários:

hideki disse...

cara
nao tem experiencia mais enriquecedora do que correr no minhocao as 22h no dia de semana. a cidade iluminada, as pessoas nas janelas e os carros passando em baixo.

viajem paranoia.

Tito Peçanha Leitão disse...

gostei.

maíra disse...

nha, perdi o passeio em vão.