6 de julho de 2009

a consciência vermelha de gil 5


'Mas nas transações de troca, essa espécie de justiça não produz a união dos homens: a reciprocidade deve fazer-se de acordo com uma proporção e não na base de uma retribuição exatamente igual. Porquanto é pela retribuição proporcional que a cidade se mantém unida. Os homens procuram pagar o mal com o mal e, se não podem fazê-lo, julgam-se reduzidos à condição de simples escravos - e o bem com o bem, e se não podem fazê-lo, não há troca, e é pela troca que eles se mantêm unidos. Ora, a retribuição proporcional é garantida pela conjunção cruzada. Seja A um arquiteto, B um sapateiro, C uma casa e D um para de sapatos. O arquiteto, pois, deve receber do sapateiro o produto do trabalho deste último e dar-lhe o seu em troca. Se, pois, há uma igualdade proporcional de bens e ocorre a ação recíproca, o resultado que mencionamos serea efetuado. Senão, a permuta não é igual, nem válida, pois nada impede que o trabalho de um seja superior ao do outro. Devem, portanto ser igualizados. E isto é verdadeiro também nas outras artes, porquanto elas não subsistiriam se o que o paciente sofre não fosse exatamente o mesmo que o agente faz, e da mesma quantidade e espécie. Com efeito, não são dois médicos que se associam para troca, mas um médico e um agricultor, e, de modo geral, pessoas diferentes e desiguais; mas estas pessoas devem ser igualizadas. Eis ai porque todas as coisas que são objetos de troca devem ser comparáveis de um modo ou de outro. (...) O neumero de sapatos trocados por uma casa, deve, portanto, corresponder à razão entre o arquiteto e o sapateiro. Porque, se assim não o for, não haverá troca nem intercâmbio. E essa proporção não se verificará, a menos que os bens sejam iguais de um modo. Todos os bens devem, portanto, ser medidos por uma só e a mesma coisa, como dissemos acima. Ora, esta unidade é na realidade a procura, que mantém unidas todas as coisas (porque, se os homens não necessitassem em absoluto dos bens uns dos outros, ou não necessitassem deles igualmente, ou não haveria troca, ou não a mesma troca). (...) Haverá, pois, reciprocidade quando os termos forem igualizados de modo que, assim como o arquiteto está para o sapateiro, a quantidade de sapatos esteja para a casa pela qual são trocados.' (Aristóteles, Ética a Nicômaco - livro 5, p128, trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim).
Desta forma, o sapateiro está para a casa assim como o arquiteto está para o sapato; ambos precisam do que o outro faz e ambos se necessitam. A necessidade é a medida da troca.

6 comentários:

maíra disse...

a troca do seu trabalho pelo trabalho de alguém deve ser muito recompensador. imagino que nos sentimos mais úteis ao ver que o seu trabalho é pedido por alguém que realmente precisa dele e não será trocado por um montante de papel no final do mês. esse montante é mais simbólico do que real para mim.
e de fato, a cidade aconteceria de uma forma completamente diferente. é igual o dia que eu dei meu guarda-chuva e você me ofereceu um banho quente.

daniloz disse...

pois é. e aqui a questão vai um pouco mais adiante; pois podemos entender deste parágrafo que o sapateiro deve dar ao arquiteto a quantidade justa de sapatos em troca da casa. mas, qual é a quantidade justa? serão tantos milhares de sapatos ou apenas um par? se levarmos para o caminho com o qual estamos habituados, o sapateiro deveria dar meio milhão de sapatos ao arquiteto, mas, se cada qual precisa do que o outro faz, qual seria o impacto destra troca se efetuar SOMENTE caucada na necessidade de cada um? garanto que teríamos uma diferença séria no mundo.

Yuri Machado disse...

"E essa proporção não se verificará, a menos que os bens sejam iguais de um modo. TODOS OS BENS DEVEM SER MEDIDOS POR UMA SÓ E A MESMA COISA, como dissemos acima. Ora, esta unidade é na realidade a procura"

Bem, você entendeu essa "procura" como "necessidade", mas o texto deixa isso um pouco desagradavelmente aberto, não deixa? Várias vezes parece que sugere justamente o uso do dinheiro como simbolo de medida de demanda mesmo, o que a gente faz nos dias de hoje. Porque o texto não sugere qual deveria ser o critério realmente para decidir - como você disse - quantos sapatos deveriam ser trocados por uma casa... Porque nos dias de hoje, sapatos são trocados por casa, mas com o intermédio desse "simbolo de medida de demanda"; o dinheiro. Porque se você não colocar na balança que 1 CASA equivale a 1 SAPATO, visto que o sapateiro precisa da casa e o arquiteto precisa do sapato, você já recria a necessidade do dinheiro, porque o NÚMERO DE CASAS de que o sapateiro precisa não é o NÚMERO DE SAPATOS que o arquiteto quer em troca.. digo... o arquiteto não vai querer 5.000 sapatos, vai? Você volta a criar uma hierarquia pesadíssima entre as funções de acordo com o poder de troca do material que você produz. Eu adoro imaginar o mundo como você sugeriu, mas infelizmente toda a lógica da troca já predispõe uma hierarquia feroz entre o arquiteto e o sapateiro.

Yuri Machado disse...

Pô, mas eu amei horrores a tirinha. Terminar com os pés foi toque de gênio, Dan.

Mas na própria tirinha você pode questionar se a troca é justa mesmo... porque ela não aconteceu com os dois no mesmo "nível".. entende? Porque a água ele bebe e acabou, e passa a precisar de novo, enquanto os sapatos ele vai usar muito, por semanas, antes de precisar de outro... O cara teria que trocar "muitas águas" por um sapato, para valer proporcionalmente igual, se você considera que eles estão.. sei lá.. atravessando um deserto? No dia seguinte o cara que trocou os sapatos vai estar morrendo de sede e sem sapatos.. enquanto aquele que deu a água provavelmente tinha mais água pra si, e mesmo se não, no dia seguinte pelo menos está morrendo de sede e com sapatos... é desigual de novo, não é?

Mas fica bonito se você imagina a coisa imediatamente, sem dúvida.

Tito Peçanha Leitão disse...

esse EXATO trecho está no primeiro capítulo do capital de marx.

É emocionante ler o elogio e a crítica que o marx faz a esse trecho.

Aristóteles teria percebido o fundamento de relações entre homens que há por traz de toda a permutação de mercadorias. O valor é produzido na relação entre homens. Faltaria a aristóteles a percepção de que o trabalho (e não a necessidade) é o fundamento do valor. A permutabilidade (ou essa essência comum que permite a troca) seria o trabalho humano abstrato (dispêndio de energia ao longo de um periodo determinado de tempo).

Para marx aristóteles não viu isso devido à estrutura da sociedade em que vivia e à sua posição: o trabalho era feito pelos escravos. Para reconhecer que o valor estava no tempo que o escravo se dedica ao trabalho seria a negação de toda a civilização em que vivia.

daniloz disse...

mas cara, (yuri), a questão que eu quis colocar aqui é justamente uma troca feita de forma completamente destituída DESTA lógica de QUANTOS pares de sapatos seriam necessários, entende? mas como estava falando hoje a tarde com o marcinho, toda esta construção da procura como base da troca acaba por tirar da jogada o trabalho, peça fundamental da questão, 'falha' atribuída por alguns ao fato do aristóteles viver numa sociedade em que o trabalho não era exatamente reconhecido, e sim coisa de escravo. ainda sim gosto de voltar ao ponto de perguntar o que é necessário para se viver BEM, o motivo que aristóteles aponta como justificativa do homem viver em sociedade e cidade. defina o que é bom e o que é justo e acho que chegamos mais perto de onde gostaria de chegar com esta história toda, hehehehe.