10 de junho de 2010

tamanduateí 03.06.2010 (III)


terceiro desenho da sexta visita. foda, só acabei ele agora e já tenho os outros três da sétima aqui na reta para continuar, fora o relatório que deixou de ser um fantasma para começar a ser uma coisa de verdade a se fazer. eu deixei o desenho 'interminado' porque achei que ele já estava tão bonito assim, e achei que era hora de variar já.


abaixo está mais um pedaço do meu relatório ou diário de visitas, onde tenho registrado impressões e idéias sobre a região ainda sem uma edição:

Desenho 22:
Poucos metros separam este desenho do anterior. Eu achei que não precisava necessariamente respeitar ortodoxamente a minha regra dos 150 metros entre desenhos, mas sim que eles deveriam pegar os pontos mais significativos da paisagem. Levantei então de onde estava e atravessei a ponte, apoiando a prancheta no parapeito do lado oposto; impressionante como tão pouca distância pode alterar a paisagem desta forma. O rio apareceu novamente na paisagem, marcante, determinante. É a estrutura da região que o nega com toda sua força, só falta enterrar, eliminar este estorvo fedorento. Bem à direita do desenho aparece nada menos que a foz do rio Anhangabaú, que até alguns anos atrás eu nem sabia que existia. Aliás, isso é bem comum na cidade, ruas e mais ruas, avenidas com nomes de rios, aparentemente deslocados de contexto mas que na verdade substituíram os rios, roubaram sua identidade. O edifício sobre ele ficou muito gravado na minha cabeça por causa disso, desde que ele voltou a aparecer na paisagem, depois de terminadas as visitas de reconhecimento e iniciado o trabalho em si, tenho retratado ele com um cuidado especial, afinal, pense no que ele significa. É o marco, a proa do navio que separa os dois principais rios na formação da cidade, os responsáveis pela colonização desta colina em especial para a fundação da vila. E o que resta hoje é apenas uma cachoira pestilenta que sai de dois buracos e despenca por um degrau na calha rebaixada do Tamanduateí, assim, sem anúncio algum.
Por cima dele está a rua Carlos de Sousa Nazaré, parte da zona cerealista, ou varejista do centro periférico da cidade, abastecendo o Mercado Municipal. Do outro lado do rio, a esquisitíssima praça do Largo do Pari, ocupada pelos caminhões que chegam para a feira da madrugada, responsáveis por todo o abastecimento. Caminhões lotados de cocos verdes ou sei lá mais o quê. É uma praça daquelas que não é formada por um espaço negativo criado pelas construções, é uma praça manca, triangular, que parece ter sido cortada pela metade pela avenida do estado e pelo rio inconveniente. De um lado ainda tem umas casinhas, uma rua mais estruturada, mas pelos outros dois, apenas um muro e uma mureta, com uma buraco intransponível. O pior é que sua implantação a 45º em relação ao rio, com as ruas saindo oblicuamente à avenida são muito charmosas, pois com a aproximação se vê por mais tempo mais longe em direção ao fim delas, diferentemente de uma rua que se atravessa perpendicularmente, apenas. Resumindo, é mais um daqueles lugares interessantíssimos ironicamente assassinados pela própria localização.

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