14 de junho de 2010

tamanduateí 10.06.2010 (II)


segundo desenho (24/25) da sétima visita ao tamanduateí. hoje eu tentei trabalhar, mas como estava difícil, em casa, resolvi desenhar, mas como estava difícil, resolvi trabalhar, mas como estava difícil, resolvi terminar o desenho, mas como estava difícil, larguei, então pronto.


ai embaixo coloquei mais um trecho do meu proto-relatório final.

Desenho 24:
Virando novamente em direção ao centro, ou ao parque Dom Pedro II, me deparei com a súbita proximidade do mercadão. ‘Pronto’, pensei, ‘é agora que tenho que encarar o desenho deste troço todo’. Sentei sobre a amurada, então e virei o desenho de forma meio oblícua ao canal, coisa que fiz poucas vezes até agora, mas que só depois de vinte e tantos desenhos é que me senti mais confiante a fazê-lo. Este é um lugar peculiar. O mercado Municipal é aquilo que o Aldo Rossi chamaria de um ‘fato urbano’. Ele cria, modifica, é o espaço a sua volta. Por mais que tenha perdido sua função original de centralizar a distribuição das mercadorias na cidade para o Ceasa, mantém uma vida ainda fortíssima em torno de si. Sua presença arquitetônica é outra questão que vale mencionar, pois o projeto de Ramos de Azevedo atrai hoje uma porção enorme de turistas, inclusive paulistanos, como pretexto de passear pela própria cidade. Ele sobreviveu ao Diário Popular e à morte do São Vito, à Avenida do Estado e ao ex-parque D. Pedro II. Está certo que o turismo ‘descaracteriza’, assim dizendo, as funções e atividades que tomam parte de um lugar, mas ainda sim ele de certa forma acontece por causa deste lugar, então é parte dele também.
Novamente há uma riqueza inexperada na quantidade de pessoas passando. O movimento de automóveis e caminhões, por outro lado, pode deixar qualquer um maluco, mas parece haver um cuidado das pessoas pelo lugar, é uma sensação difícil de explicar, mas é tão simples quanto pensar que antes eu estava em lugares que eu mesmo achava dificuldade em descrever e localizar, mas agora estamos ‘próximos do mercadão’. Percebe? Há uma identidade, que é o principal fator na criação de um nome e de um lugar, neste contexto em que estamos tratando justamente de lugares entendidos como não-lugares, pedaços de espaço sacrificados por conta de uma funcionalidade ou necessidade aparentemente maior que a dele em si, mas que não dizem necessariamente respeito a ele. A ninguém interessa onde exatamente passa a avenida do estado, ou que ao lado dela está o rio Tamanduateí, mas sim que ela leva do ABC à marginal Tietê, à zona Norte, cruza a cidade de cabo a rabo, mas não é um lugar. Não chamamos uma Avenida de lugar, mas sim de passagem, é uma compreensão diferente do tempo.
A cor bege e a ausência de pichações numa área deste tamanho chama a atenção, há um cuidado ao redor do mercado. A pichação ‘mutant’ em azul na ponte da Avenida Mercúrio me fez pensar nesta condição do homem que vive na cidade grande, e fiquei imaginando como seria morar num lugar como este, restaurar o São Vito mas ao invés de fazer uma nova sala são paulo, exemplo máximo de discrepância entre a cracolândia do lado de fora e a incrível estrutura para a elite da cidade, com um restaurante-mirante (que apesar da idéia ser fenomenal, porque a vista deve ser estonteante), propor uma exemplo de habitação social concreto, no centro. É injusto um edifício deste tamanho estar nesta condição enquanto muito provavelmente a grande maioria dos trabalhadores da zona cerealista mora ou em cortiços ou em algum ponto incrivelmente distante do local de trabalho.

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