18 de junho de 2010

tamanduateí 16.06.2010 (I)


primeiro desenho da 8º visita ao tamanduateí, desta vez acompanhado pelo marcinho. não vou falar muito mais porque o relato da visita ai embaixo já está suficientemente gigantesco.


Desenho 26:
Esta semana, excepcionalmente, fui desenhar na quarta-feira dia 16, para que o meu irmão pudesse ir comigo, já que há um bom tempo ele vinha pedindo porque quinta-feira era o único dia da semana impossível para ele. De qualquer forma, fui de manhã, o que significa que nada mudou muito, ainda que o movimento tenha aparentado ser bem menor. Descemos na estação São Bento e saímos pela ladeira Porto Geral, descendo para a 25 de Março e o antigo porto da cidade. Andamos um pouco para a esquerda, viramos à direita e já tínhamos chegado ao mercadão, pelos fundos, completa novidade para mim. O clima que senti nas pessoas era quase infantil, como uma recordação muito clara que às vezes tenho de manhãs calmas em que estamos fazendo alguma coisa diferente do que estamos habituados mas muito boa, quando o sol tem seu valor, o sujeito varrendo a calçada é feliz, os cheiros não incomodam, enfim, bom humor.
O fato de ter companhia talvez tenha me causado esta sensação. Foram 7 visitas muito solitárias, afinal, comparáveis às viagens que já fiz sozinho, em que se pensa e observa tanto, por tanto tempo, sem sequer abrir a boca, que ficamos até cansados sem entender ao certo. Atravessamos o mercado, o marcinho parou para ir no banheiro, como de hábito, e eu esperei um pouco assistindo a um pedaço insignificante de Chile x Honduras no bar do mercado. Saímos em seguida e atravessamos o rio pela ponte da Avenida Mercúrio, chegando à base do São Vito.
Desde a semana passada eu percebera que estavam demolindo tudo ao redor dos edifícios principais. Uma clareira está sendo feita ao redor deles, isolando-os ainda mais, um cerco, eu diria, sitiando esta construção de uma forma tão hostil como poucas vezes vi fazerem com um prédio em especial. Procurando vistas aéreas de cima do São Vito no Google Earth, deparei-me com declarações do tipo ‘vista do edifício São Vito, o prédio mais feio de São Paulo’, e falando disso com o meu irmão constatamos esta dificuldade muito grande que muitas vezes enfrentamos por parte das pessoas de confundirem o estado de conservação de um edifício com suas qualidades propriamente ditas. É certo que o São Vito, vulgo ‘treme-treme’ está longe de ser um edifício ideal, mas sua proposta de pequenos apartamentos justamente onde são necessários é atualíssima. Loucura é a idéia de pô-lo abaixo simplesmente, e não de restaurá-lo transformando em moradia popular na região central, usar como ponto de partida no resgate do Parque D. Pedro.
Sentamos na esquina do São Vito com a Praça São Vito, justamente. Miramos o Viaduto Diário Popular como objeto principal dos desenhos, eu mais preocupado com sua inserção no contexto urbano, as proporções, conflitos e conexões de cada entidade que se desenvolvia neste trecho, enquanto meu irmão se focou diretamente sobre os complexos pilares do viaduto. Eu acho incrivelmente curioso como escolhemos aquilo que decidimos criticar. O viaduto do Diário Popular é um bela obra de engenharia, sem dúvida, posto sobre uma mesa, eu o acharia belíssimo. Até mesmo visto de certa distância, sua curvatura delicada, contornando o Palácio das Indústrias, transpondo o rio Tamanduateí, é atraente. O que o torna complicado, porém, é o lugar que criou por estar onde está. Mas veja, o São Vito é horroroso, ouvimos sempre, mas quem ousa dizer que este viaduto seja tão feio assim? Ninguém. Por que o sistema viário merece esta ‘consideração extra’ antes de ser criticado? O São Vito é considerado horroroso porque está caindo aos pedaços e há pobres morando de forma indigna dentro dele, parece uma favela vertical, é um choque de realidade, é uma concretização de boa parte dos problemas que temos na metrópole, e por isso ele se torna aterrorizantemente feio, enquanto o viaduto, que é bonito, só está feio porque há alguns mendigos ‘que não deveriam estar lá’ morando embaixo. Em que momento da nossa história aprendemos a tolerar uma coisa e não a outra?
E sentados lá, desenhando, estávamos incrivelmente sujeitos aos acontecimentos. Diversas foram as pessoas que passaram e nos deixaram carinhosas palavras de encorajamento, algumas nos pediam para ver, outras olhavam de longe. Eu senti uma diferença, antes era só eu, agora éramos dois, muito mais forte o impacto sobre as pessoas. A pergunta ‘mas o que estão desenhando?’ se manteve tão afiada como sempre, mas eis que me apareceu a grande surpresa, uma senhora, que parou ao meu lado e me perguntou se eu ainda desenharia o São Vito. Eu lhe disse que não neste momento, porque eu já o havia desenhado mais de uma vez, hoje pensando, devem ter sido umas dez, porque estava fazendo este trajeto desde lá de trás até ali. E ela me disse então que desenhasse com muito carinho este prédio porque era muito importante para ela, que, vim a saber mais a frente na conversa, havia sido despejada já há 7 anos. Há 7 anos, portanto, ela morava num outro edifício de nome francês na rua Pagé (provavelmente a rua onde fica a galeria Pagé, a rua Afonso Kherlakian), que dizia ser muito pior que o São Vito, pois lá agora só havia gente desrespeitosa e drogada, enquanto no São Vito havia respeito e mais privacidade. Obviamente devemos ouvir estas palavras sabendo dos laços e vínculos que as pessoas criam com sua história e memórias, de forma a saber pesar as ‘verdades’, mas ainda sim é um depoimento interessante principalmente porque vem diretamente a favor do que eu falava até há pouco.
Ela ainda disse que participou dos movimentos, que a sua bolsa habitação acabaria este ano e que alguém bem próximo, um homem, morrera mas eu não consegui entender bem quem era. O fato de chamarem o prédio de treme-treme para ela era certa injustiça, mas ainda sim ela disse que isso era o de menos porque as pessoas dão seus apelidos às coisas, ‘eu mesma, por exemplo, outro dia fui contar e descobri que tenhos 80 apelidos diferentes; zita, zinha, rita tia…’. Mas o que me deixaria feliz mesmo era que a Usp, o Mackenzie, o Senac, qualquer um destes ficasse com este prédio e enchesse de jovens de novo este lugar, isso sim me deixaria alegre, ver a mocidade usando este lugar que foi tão importante para mim’. Depois disso eu cheguei a vislumbrar esta grandeza neste lugar, e terminei o desenho feliz, apesar do vento frio.
O tráfego que no momento em que nos sentamos parecia tranquilo, depois de alguns minutos tecnicamente impossibilitou a vista do que estava atrás, principalmente por conta de caminhões de todas as possíveis alturas, em alguns casos tampando toda a visão, inclusive dos prédios mais altos atrás. Então, neste sentido, o desenho de apressou um pouco na medida em que tinha que resolver de forma avoada a topografia, a volumetria das construções e me manter minimamente fiel ao que via dali.

3 comentários:

Isadora disse...

ontem mesmo eu li uma notícia sobre a possível demolição do são vito. digo possível porque ainda há muitas pendências na justiça sobre demolir ou recuperar.
e na notícia dizia que o são vito, se for demolido, vai ser colocado abaixo manualmente, porque uma implosão danificaria os vitrais do mercadão.
seu tfg me lembra o trabalho do rolo, no primeiro ano.

daniloz disse...

então isa, eu também li esta notícia, provavelmente no jornal, mas não me lembro bem. eles já estão demolindo o entorno, mas também não tive segurança numa certeza de que vão colocá-lo abaixo, ele falam isso já há uns 10 anos, pelo menos, há 7 ele está desocupado.
e sim, meu trabalho lembra o do rolo porque uma das referências do trabalho do rolo, e da visão seriada que fazemos no primeiro ano, o gordon cullen, é uma das principais do meu trabalho.

Isadora disse...

além do mais, minha mesa ficou encarregada de boa parte desse trecho aí! hehe