16 de novembro de 2010

sobre bicicletas e ciclistas

Antes de tudo: eu ando de bicicleta todo dia, gosto pra burro disso, não troco por nada. Rodo 100, 120 km por semana, faça sol ou faça chuva, frio ou vento contra. Sou um cara normal; fico feliz, eufórico, puto, deprimido, varia como tudo numa pessoa. Tem dia que andar de bicicleta é o máximo, tudo que eu sempre quis, curto cada segundo. Noutros, que nem hoje que está chovendo, ou quando estou especialmente cansado (treino handebol, corro e ando de bicicleta, estudo, trabalho), triste, ou de saco cheio, isso pode não ser verdade, é custoso, e vocês (ciclistas) bem sabem como um sacana qualquer no caminho pode acabar com nosso humor de um segundo para o outro. Meus desenhos falam sobre isso, sobre o que EU passo como ciclista e imagino que muitos outros devam passar também, afinal, o cenário do ciclista em São Paulo é bem parecido.

Vivemos numa cidade cujos motoristas não têm costume/educação de respeitar os ciclistas e não dispomos de muitos locais de circulação adequada/devidamente segregada/preferencial de bicicletas em quantidade significativa. Os projetos de ciclovia põe em conflito o cliclista e o pedestre, como se andar de biciclieta na cidade fosse brincadeira de criança no parque, ou, mais absurdo ainda, ciclista e ônibus numa mesma pista (!) que deve ser algum plano diabólico para assassinar todos nós, não é possível. Mas não tenho nada contra o automóvel em si, acho que destrutiva é a forma como as políticas foram se sucedendo para torná-lo a única opção de circulação 'legal' na cidade em detrimento do próprio espaço urbano de qualidade (Quem mata, a arma ou quem atira?). As ruas e avenidas são compreendidas como lugares exclusivos (e por direito) de uso dos carros, o que não é verdade. Córregos, rios, morros, tudo retificado, estreitado, modificado para melhorar o fluxo, a pressa, a rapidez de deslocamento em automóvel.

A indústria automobilística, o marketing, nosso estilo de vida, o capitalismo, o que for, fazem a sociedade acreditar que é importante ter um SUV ou um maldito 4x4 para conseguir sair da garagem do prédio, preto de preferência, porque assim se usa mais ar condicionado e se bebe mais gasolina, para andar, obviamente sozinho no banco de couro creme ouvindo Bach. Três canos de escapamento, porque assim sai mais fumaça e o carro parece mais potente, maior e mais imponente, afinal, o 'carro diz uem você é'. Ou então que nem as motos, cujos escapamentos são estrategicamente direcionados de forma a expelir exatamente na altura do rosto de um ciclista que esteja atrás dela, é impressionante a 'coincidência'. Ou aquelas motos enormes estilo estradeiras, que só servem para fazer barulho. Parece, e é, uma verdadeira teoria da conspiração, um ciclo vicioso, um fim em si mesmo.

A grande maioria das pessoas fica muito presa aos meio convencionais de deslocamento, aqueles que ela conhece e que a sociedade costuma mostrar como sendo as opções disponíveis a ela: carro, metrô, ônibus, trem, moto. E de fato, para ir trabalhar de bicicleta, há uma série de inconvenientes a lidar; desde onde estacionar a magrela (já ouvi muito: 'aqui neste estacionamento não pode porque bicicleta risca carro) até onde se trocar, se 'esfriar' depois do superaquecimento proveniente da atividade física que é pedalar, o suor, como transportar sua roupa, sapatos, etc. É necessária uma certa organização, e claro, vontade, porque nem sempre é fácil. E não se trata de um mar de rosas.

E é aqui que eu queria chegar; a todos que têm comentado no blog depois da Ana (obrigado, Ana) ter linkado minhas tirinhas aos blogs do pessoal cicloativista, obrigado por aparecerem por aqui e comentado, é bom ouvir que o pessoal se preocupa com a imagem do ciclista. Mas me recuso a tratar a posição do ciclista na cidade como o mártir do bem, acima da perversidade do mundo de hoje. Eu me sinto assim às vezes, isso me motiva, eu sei que estou fazendo algo bom e que vale a pena, por mim e por todos. Por isso respeito e apoio muito o pessoal que tem estas iniciativas; vejo sempre as plaquinhas do 'um carro a menos', que sempre me inspiram. Mas eu sim sinto raiva também, tenho humor (bom e mau) oscilando durante o dia, vibro e tenho vontade de matar conforme as coisas que me acontecem. Aposto que com ninguém é diferente, não sou um monge zen. E este é um dos motivos da minha abordagem; eu ando de bicicleta, eu adoro, mas também me enche o saco o exagero da causa, posição, o ativismo, a atitude pró-salvação-da-terra. Assim como tenho vontade de queimar o jornal quando as 5 primeiras páginas são propaganda do Hiunday SUV sei lá o que, o 'melhor carro do mundo' segundo eles mesmos. É contraditório, egoísta, esquisita a minha atitude, mas este sou eu.

A questão é que gosto de fazer e ponto. Gosto de andar de bicicleta porque isso me faz bem, não quero convencer ninguém, obrigar, fazer com que se sintam culpados, e é o que acontece algumas vezes e que me incomoda muito. É ainda uma opção para as pessoas. Não digo que não seja um bom exemplo nem algo que devamos deixar de fazer, lutar, por favor, continuem porque é uma coisa importantíssima, só não gosto eu de fazê-lo tão descaradamente. Sei que a minha posição é delicada, ainda mais publicando num jornal de grande circulação como a Folha, mas não quero passar a imagem do ciclista como um anjo, muito menos alguém errado, longe disso, só de uma pessoa com conflitos normais de personalidade, enfim, menos radical que a imagem pasteurizada do ciclista costuma ter. E tirar sarro de nós mesmos, acho algo positivo. Talvez isso ajude a aproximar outras pessoas, enfim, é uma abordagem diferente.

10 comentários:

Fourier disse...

Danilo,

Bacana que você escreceu um texto para explicar o motivo das tiras de bikes. Abrir a discussão é a melhor coisa possível, algo que sua companheira de jornal, Barbara Gância não fez, quando ofendeu aqueles que pedalam por SP.

Entendo completamente sua visão. Eu uso a bike para tudo e não quero ser um mártir do bem, quero apenas ter o direito de pedalar com segurança nas ruas, algo que tenho realmente o direito.

Conheço muitos ciclistas TCR, e algumas vezes tenho vontade de ser um, mas nunca fui. Mas você tocou num ponto interessante. Mostrou as dificuldades que passamos. E também contou as vantagens (não focando tanto, mas disse).

Mas é o que você disse, usou o humor para aproximar e isso aconteceu. Suas tiras estão sendo faladas em diversas listas de discussão no twitter e por aí vai.

Se quiser, apareça um dia na Bicicletada, não é nada a xiita, apenas uma minoria e você vai ver como será bem recebido.

Abraço,

daniloz disse...

Fourier (desculpa, não sei se você é ele ou ela), obrigado por se manifestar.
Eu confesso que fiquei um pouco assustado quando percebi que algumas pessoas estavam interpretando mal meus desenhos, por isso parei o que estava fazendo para escrever sobre isso. Me aliviou. Não sei o que esta colunista que você citou falou, mas imagino, há muita gente que acha que todo ciclista é um delinquente estorvando o trânsito.
Agora, de TCR todos temos um pouco, eu também nunca manifestei, não além de devolver xingamentos ou dar umas boas desabafadas, mas no geral, sempre alguém passando na rua compartilha nossa situação.

um beijo/abraço e apareça ai.
Quanto às bicicletadas, eu nunca fui por causa de tempo mesmo, desde 2008 estou devendo ir numa, mas como disse, faço tanta coisa durante a semana que geralmente chega a sexta-feira e eu quero mesmo é desmaiar.

Fourier disse...

Danilo,

Sou ele, inspirado em Charles Fourier. Me chamo Felipe Aragonez e sou Bike Repórter, trabalho junto com a Falzoni.

Não sei se você tem twitter, mas o meu é @bikerreporter.

O texto da Barbara Gância é essa: http://sergyovitro.blogspot.com/2010/08/barbara-gancia-cicloativissima.html

Que gerou protestos como esse:http://outrasvias.com.br/2010/08/08/logica-assassina-ou-carta-aberta-a-barbara-gancia/

O pessoal não deve ter gostado, porque o ciclista é sempre criticado e sempre quando vem algo mais realista, fica esse manifesto. Mas como vc não lê a lista da Bicicletada, não viu que teve gente que te entendeu.

Mas apareça na Bicicletada sim, o ritmo é tranquilo, nem cansa. Apareça!

Abraço,

daniloz disse...

pódexá.
agora, esta mulher não teve/tem tato nenhum! hahaha é tão absurdo que lembra tipo o diogo mainardi, sei lá.

daniloz disse...

ah, e Felipe, se puder, me passa o link para eu ver o que o pessoal anda falando, não tenho twitter não.
valeu, abraço.

Fourier disse...

Danilo,

Na lista você só pode ver se estiver cadastrado.

Mas o Carlos Neumann disse que te conhece e disse que você é gente boa. O importante é que vc abriu uma discussão e continue fazendo tirinhas de bike.

daniloz disse...

valeu cara.
e claro, não penso em parar.
abraço, prazer.

Rodrigo disse...

Pessoalzinho sensível, sô! :)

Wadilson disse...

Danilo, me identifiquei bragarai através de seus desenhos. Minha bike tem tudo aquilo (correntes, cadeados, elasticos ,capa de chuva, roupa extra, paralamas, sacos plásticos etc etc) e pedalo 'à sério', sangue nos olhos. Tudo enfim.
Só não tenho o tênis xexelento; prefiro as sapatilhas com taquinho.

E sempre que vou pra rua acabo tendo um espírito beligerante, me torno também um 'ciclista rancoroso'

Mas.. cara, na boa: vc tem um puta espaço, q é essa Falha de S.Paulo, tá falando com uma pequena multidão, e reforçar esse comportamento só aumenta o estigma, de ambos os lados.

A dourada medianía, o consenso, a conversa, enfim, a paz. Tento sempre agir como o @wcruz ou o @oBicicreteiro que sempre valorizam o diálogo com o outro. Confesso q é muito difícil pra mim, às vezes me parece impossível; e confesso ainda que já chutei uns retrovisores por aí; a última vez foi igualzinho à sua história, parecia até a minha história (até os peitos siliconados da madame eram iguais).

Mas eu sei que esses monstroristas não são a maioria, não são nem a minoria. Não são nada. No entanto, basta encontrar somente um deles no dia para q eu acredite que todos os motoristas e seus carros devem ser queimados.

Já que vc tem o espaço, e imagino q o editor do caderno te dê razoável liberdade de criação, aproveite para mostrar o lado legal disso. Como é legal poder pedalar e curtir o caminho, ver as praças, árvores, poder escolher o caminho e ver a cidade. E como os caras que escolhem o carro podem ajudar, ser mais solidários, e até talvez cooptar um distraído por aí para que pegue sua magrela empoeirada e venha para as ruas.

A primeira história que li sua, a da madame siliconada, tinha tanta agressão e violência (e ainda mais saindo na Falha de S.Paulo) que, sério, pensei que era de um carrocrata qualquer, como a que Yehuda encontrou (veja as tirinhas http://www.yehudamoon.com/ )
Talvez por isso houve tanta reação negativa de ciclistas com seu estilo.

A cidade é feia, suja e violenta, mas não precisa ser assim pra sempre. E tem muita gente que gosta daqui.

No mais, gostei muito do seu traço, das histórias, das fotos, e dos seus textos.

Força no pedal e t+
Wadilson

daniloz disse...

Fala Wadilson, prazer.

Talvez não tenha ficado muito claro, acho que ficou, na verdade. Enfim, o TCR é uma metáfora, um estado de espírito, um grande 'deu vontade de fazer', acho que isso você pegou bem, acontece de nos sentirmos assim, e foi isso que eu achei importante de retratar.

Reavaliando um pouco esta questão do espaço disponível num jornal de grande porte, concordo com você que existe uma responsabilidade enorme em cima do meu material, e resta saber que mensagem passarei com ela.
Não tenho dúvidas que quero fazer algo bom, só não descarado, se é que me entende (Não quero ficar exatamente enaltecendo a bike, mas peguei bem a mensagem que alguns de vocês tiveram o cuidado de me passar).

Este link que você me passou é muito bacana, só que o perfil das histórias é um pouco diferente na medida em que são tirinhas diárias (ou semanais, não sei bem), que dão uma dinâmica muito diferente do meu espaço na folha, que é mensal (de 5 em 5 semanas, na verdade).

A questão é que captei o problema, achei válidos os comentários, principalmente quanto à violência, que sim, choca, mas que também é uma forma de demonstrar o exagero presente nestas situações, tudo levado ao extremo. Não sei se todo mundo viu a primeira tirinha, você viu, mas ela já aborda num viés bem diferente.

Enfim, tenho gostado muito do retorno do pessoal, dá vontade de chegar logo a nova tirinha para eu poder colocar isso no papel de novo antes do assunto esfriar.

Um abraço.
daniloz