17 de fevereiro de 2011

sobe no coqueiro

Nosso guia, 'Tiago sem H', como ele fazia questão de frisar, era um daqueles negões (no bom sentido, claro) de dar inveja. Preto preto preto preto preto, tão preto que era praticamente azul, não muito alto mas devia pesar facilmente uns 100 quilos. De branco ali só os dentes e o cantos dos olhos, talvez as palmas da mão e do pé também. A coisa mais impressionante, aliás, eram os pés, duas batatas enormes, em nada parecidos com nossas patinhas urbanas. Eram redondos, quase tão largos quanto compridos com uma sola tão curva como o próprio barco. Duvido que haja sapato normal de mercado que lhe sirva os pés. Não que ele precise, pelo jeito nunca usou um sapato na vida, mas ainda sim me perguntei. Conduzia o barco de madeira com motor de popa na maciota, suave. Subia nas ondas certinho, mesmo quando jurássemos que fosse para capotar o barco, descia leve, virava assim ou assado, como se fossem a mesma coisa, era impressionante. Mas ficamos de queixo caído quando este cara nos fez descer na tal da praia deserta, avisando sobre os haitianos e tal, e então nos perguntando se estávamos com sede. Não entendemos exatamente mas ele insistiu perguntando se queríamos água de coco. Bem, as mãos quase que instintivamente foram às bolsas, pensando nos trocados e vendedores de coco. Nosso guia então trepou no coqueiro mais próximo, que devia ter bons 15 metros até a copa, subiu-lhe rapidinho como se fosse quebrá-lo ao meio com o corpo arqueado entre as mãos que puxavam contra as pernas que empurravam. Chegando lá em cima se pendurou nas folhas, qual macaco (sem nenhuma insinuação pejorativa, um elogio, isso sim), balançando intensamente até pôr os pés mais alto que a cabeça em chutes que fariam os cocos simplesmente desistirem de se pendurarem lá também. Não parando ai, ele desceu ainda mais rápido, quebrou uma folha do coqueiro no meio, ficando só com a ponta do talo na mão, e, feito lança, fincou-a no olho do coco abrindo-o num só golpe. Bebemos (quer dizer, praticamente babamos) a água toda e então o cara ainda me pega uma pedra gigantesca e parte a porra do coco ao meio, arrancando a carne dura com as unhas e dando para os branquelos boquiabertos comerem. Acho que um cara destes nunca deixou de receber por um passeio.

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