
entrando no quentinho dos subterrâneos.
bem, quando o marcinho viu o post anterior me disse - mas é claro que eu ainda tenho o meu desenho, era muito mais legal que o seu, era um dragão mais gordo escalando o castelo e tal - então fui atrás de procurar o tal do dragão. mas eis que, sem aviso nem discrição, me aparece esta foto de quando eu tinha 9 e o marcinho 7 anos, em campos de jordão. reparem nas minhas pernas mais arqueadas que pau torto e este meião que mais parece meio metro de gase enrolado em pata de galinha! mas o negócio fica fera mesmo quando olharmos para o japona do marcinho, rapaz, isso é que era estilo, com estas pantalonas escarlate e este reebok branco. o detalhe é o boné do pica-pau coloridasso na mão e a pose de jacu-pêssego! a gente era bonito e nem sabia, verdadeiras pérolas do agreste.
hoje eu estava fazendo aquela arrumação geral no meu quarto quando me deparei com este desenho que a minha mãe fez para mim há uns quinze anos, quando eu tinha uns seis ou sete anos de idade. o engraçado é que eu lembro dela fazendo, fez este para mim e um muito parecido mas não igual (lógico) para o marcinho. desde então tenho ele guardado, nunca foi um personagem especialmente presente nas minhas brincadeiras, mas acho curiosa a forma como guardei tão bem até hoje um desenho que encontrei poucas vezes durante minha vida. lembro de descobri-lo nalgum lugar surpreendente mais do que dele propriamente. de qualquer forma, sempre adorei este desenho da mamis.
para comemorar meu primeiro dia de férias (tecnicamente hoje, mas psicologicamente amanhã) resolvi desenhar um pouco, botando a mão esquerda para se virar. o problema é que ela se saiu meio bem demais, na minha opinião, e chegou quase que no nível da direita, pelo menos no que se refere ao modo de desenhar. o contraste que eu queria óbvio entre o traço da mão esquerda e da direita, e a brincadeira de que a mais hábil só desenha a menos e vice-versa ficaram meio prejudicados com a performance canhota. não sei se a minha mão direita está ficando para trás ou se está na hora dela tentar inventar outro jeito de desenhar porque este até a esquerda já aprendeu! de qualquer forma achei uma bela composição, e uma salva de palmas para a mão esquerda, me surpreendeu.
bem, toda esta estória começou com a minha mãe querendo ver uma tirinha que eu estava desenhando de cinco em cinco minutos - mãe, por que você não espera ficar pronta? - no que ela me respondeu - porque gosto de ver o processo acontecendo. agora, depois de uns dois meses eu finalmente tive tempo de registrar as partes do processo de desenhar estas tirinhas. a primeira parte, acima, é um croqui que fiz numa folha de sulfite, em dois minutos, para testar o layout que tinha imaginado, ver se os tamanhos dos personagens estavam bons, etc.
neste desenho seguinte, que está com a cor deformada por causa das maracutaias que tive que fazer mal-e-porcamente no photoshop para as linhas aparecerem no scaner, desenhei com um grafite muuuuuito clarinho, mais para me localizar, esboçar as formas na página definitiva e fazer os ajustes necessários para caber tudo.
na etapa seguinte eu comecei a passar à tinta o esboção à lapis, é a hora em que elejo a linha que vai vingar, porque a rabisquera tem que dar lugar a uma forma clara e limpa. o amarelo entra agora para tentar borrar menos com o preto, pois estas tintas à base de água se diluem o tempo inteiro.
nesta parte eu começo a detalhar mais o desenho, logo depois de apagar de vez os vestígios de grafite acrescentar os objetos/hachuras em segundo plano, terminar de pintar as cores claras que agora não vão mais borrar com o grafite.
as outras cores vêm na sequência, junto com o detalhe da roupa, que deixo sempre como a penúltima coisa a se fazer por tradição. as outras cores vêm também.
por fim acrescento os fundos chapados, principalmente preto, para realçar as figuras e refazer algum contorno esquisito. o grafite é a última coisa para tentar não borrar o desenho. eu fiquei pensando se não era meio chato demais contar a estorinha tão 'passo-a-passo' assim, portanto me digam se é desinteressante todo este trabalho. acho que deveria fazer que nem o marcinho que pede para darem uma nota ao post. sintam-se à vontade. ah, sobre a história, eu tenho a certeza de que todo homem é porco, quem aqui conseguir resistir à vontade de mijar em cima da represa de mijo alheio que corte os pulsos e suba ao céu agora mesmo.
comecei a desenhar esta tira nas vésperas das entregas, quando as primeiras marolas do navio das obrigações balançavam minha força de vontade, despertando a vontade de me poupar, de secretamente dispensar meu pássaro vermelho de tudo isso. a vontade era desligar a cabeça e apertar o botão do 'piloto-automático', - sou um zumbi agora - melhor representada pela abertura da gaiola e expulsão de seu senso crítico. fazer apenas, terminar apenas, rápido e apenas.
bem, este final de semestre está uma lástima, principalmente por causa de uma maquete que estive fazendo com meus sócios (mais chique falar assim, não?) até a meia noite de segunda. acabamos e fomos bem sucedidos, mas não tive tempo de desenhar nas últimas duas semanas, para terem idéia, tenho cinco idéias registradas e uma no meio do parto, todas intocadas nestes últimos dias. sendo assim, resolvi mostrar uma tirinha deste cara, o rafael sica, que me foi indicado por um outro rafael e que desenha demais. o link dele é http://rafaelsica.zip.net e vale a pena dar uma olhada, referência. agora yuri, poderia muito bem ter sido você quem desenhou esta tirinha. este cara tem estas sacadas geniais. ai está.
porque há vezes em que não há tanto mal em escorrer os narizes e doerem as costas, arranharem as gargantas e tossirem as tripas, estar em casa paga com folga os interstícios da gripe. voltei no sábado à noite do campeonato que reúne a nata do suco do lixo da universidade de são paulo, e já no caminho, soube que estaria doente nesta noite mesmo. missão cumprida, pensei, já que desde terça-feira arrastava o adiamento da doença para depois da viagem, com doses cavalares de vitamina C, aquela que garantiu a cobiçada longevidade de linus pauling, ainda que tão questionada quanto almejada por uma seita de céticos e sanguessugas. bem, tempo em casa é tempo livre, e tempo livre, ainda que roubado do tempo de dever, é tempo de fazer o inevitável. foi estranho passar 4 dias sem sequer pensar em desenhar, curiosa a influência do meio em que nos envolvemos. vai ver o diabo vestido de top e fio-dental vermelhos, chifrinho brilhante e tridente enfiado no rbo são inibidores de criatividade. vá saber. quem vai ao bife sabe do que falo, ainda que torça o nariz ao lembrar da baleia encalhada numa carcomida piscina regan de dois anos atrás, a se refrescar na água quente e turva de protetores solares alheios, com uma bendita canequinha do usp recicla jogando água sobre as vastas costas que mais pareciam uma encosta inteira. gripe por gripe, melhor estar gripado em casa.
fazer piada com os pessimistas e mau-humorados é uma forma de enfiar uma faca em meu próprio peito, figurativamente falando, e de dar aquela torcidinha de quando pensamos 'puxa, é uma tremenda idéia para não comer tanto chocolate colocar a barra longe do sofá e se forçar a levantar cada vez que quiser um pedaço', pois, quando estamos de bom-humor, estas idéias geniais são ótimas e até sensatas. mas a idéia aqui é alfinetar meu lado resmungão e mal-criado, mau-humor-em-água-fria, não-me-provoque-que-eu-lhe-parto, quero-atenção-mas-nunca-admito e váááários outros sentimentos semelhantes. em casa tenho repertório infinito de pés-na-covices, basta parar de falar um pouco e se prestar a ouvir milongas e delongas. bem, melhor não me estender muito senão acabo tocando no mau-humor dos outros, não só no meu.
porque há dias em que cozinhamos o mau-humor em água fria até este estar encorpado o suficiente para entalar em nossa garganta e ficar com o dedo no disjuntor, pronto a botar a chave abaixo e desligar o conector cerebral que mede o tato social e a simpatia. aliás, palavra tenebrosa e proibida para aos desavisados que se derem ao direito de questionar a verdade universal e irremediável de um dia ao lado do famigerado. as pessoas não entendem que o mau-humor foi feito para afastar os inconvenientes de nós.
eu juro que quando imaginei esta tira ela estava engraçada. não sei se era o jeito como ela falava, a voz meio esganiçada daquelas pessoas que se têm em alta conta, o jeitão meio 'guardo o quanto sou foda para mim mesmo porque os outros não o merecem', a perspectiva de alguém que anda muito sozinho, e por isso mesmo aprendeu a rir de coisas estranhas. minha mãe e meu irmão podem comprovar este fenômeno, pois, quando foram me resgatar em paris, encontraram uma figura magricela que falava engraçado e ria de coisas aleatórias sem motivo aparente. andar sozinho nos deixa pensando esquisito. enfim, percebi o quão relativo é o senso de humor, mais, o quão intrincado este está à narratiava. neste caso, o humor é a narrativa, é a forma como a coisa se dá. no caso, não se dá. de qualquer forma, é curioso pensar que pessoas podem pensar coisas absolutamente diferentes à partir de uma mesma cena... eu provavelmente estaria pensando 'uau, então é assim que é o fígado'.
eu tenho a certeza de que, daquelas noites infindáveis em que nos enfiamos nos buracos da labuta, no gume da navalha abrindo espaço no objetivo único e inquestionável; o fim por ele mesmo. cavando fundo demais, porém, despertamos dos desfiladeiros abissais, das congregações de irritamentos e desgraças ribombantes, o ódio irritante, o provocativo e sádico punimento, a pena por tamanho descaramento, o suplício final, no respiro final, na força final, no final do fim, no finalmente, no passo a mais, aquele que são duas teclas ao invés de uma, o ctrl+qualquer coisa que vira ctrl+duas coisas e ai ele aparece. não podemos acreditar, mas é viva e consciente a força punitiva, alguns intitularam-na 'karma', não necessariamente trabalhando ao seu lado, não necessariamente boa, mas existe a entidade inteligente dos paus no computador. ah se existe.
eu esqueci de postar esta tirinha no blog, ela já estava no flickr desde sexta-feira, e na verdade foi feita antes da anterior. aqui eu me senti tentado, depois de ficar a me ludibriar com a lustrozidade das nucas de meus peçonhentos inimigos pessoais. rapaz, como são tentadoras estas acumulações de carne arredondadas semi-cobertas por cabelo, é uma vontade de descer aquele sonoro pescotapa estalando em ecos pelo corredor lotado, tão delicioso que todos incoscientemente se viram para ver quem foi o autor da façanha, até alma santa perde a calma do universo espiritual se vítima de tal desaforo. deus uma vez mais desceria à terra sorridente para comemorar cada pescotapa bem dado. de qualquer forma, ultra-violence é algo inacreditavelmente bom de se desenhar, ainda que seja bastante difícil.
bem, esta é para o yuri que, milagrosamente depois de ter começado a ir a pé para a aula e 'à todos os lugares', como ele gosta de dizer, começou a sentir que se ficasse sem andar dormia mal, comia menos, cagava pior, além de ficar sem o maravilhoso 'soma' tão descaradamente produzido dentro de nós mesmos. endorfina é o bicho!
acabou tendo muito mais sangue do que eu imaginava ai nesta cena, a ordem ficou invertida, não sei exatamente por quê. imaginava começar com as ferramentas na esquerda, o cara sentado em frente à televisão e por fim a parede pintada com o sangue. o cérebro como oferenda. ainda assim, nada como fazer o trabalho sujo de arrancar o cérebro para assistir televisão, uma tremenda recompensa.
pois é, eis que estava eu em casa, bordoando com umas canetas superfluosidades em papel quando irrompe em meu quarto minha mãe com uma tábua de madeira e um sorriso que unia as orelhas. não precisei perguntar para que diabos seria aquilo, pois o marcinho já apareceu gritando incoerências desde a porta de casa: 'adivinha o que o vovô pediu para você fazer?!' no que minha mãe me mostrou um bilhete inacreditável no qual constava em azul-safira a palavra centênária escrita em caligrafia oscilante. 'o que é isso?', 'seu avô pediu para que você escrevesse centenária nesta placa, para ele pendurar na árvore lá no sítio'. 'hein?!', 'pois é, ele quer colocar isso pendurado lá, para o aniversário dele'. 'não seria interessante escrever árvore centenária ao invés de somente centenária, eu perguntei a ele quando ele me deu o papel, não, ele me respondeu, não seria óbvio demais ver pendurada em uma árvore uma placa escrito árvore centenária?'. o riso foi incontrolável, mas o pedido foi tão engraçado que decidi fazer a tal da placa, não importava mais já ser para lá das onze da noite. fui para a lavanderia pintar a placa, minha mãe, não por menos, tratou da documentação fotográfica deste acontecimento histórico. até que ficou bonitinha a placa, melhor ainda vai ser vê-la pendurada na tal da árvore com os velhinhos passando embaixo. podia ser óbvio para o meu avô que aquilo é uma árvore, dai não ser necessário repeti-lo na placa, mas salta-nos bastante à vista o fato da tal da árvore ser centenária, pois é simplesmente enorme e muito velha, mas tudo bem. prefiro estes delírios que devem ser algo de projeção, de auto-reconhecimento ou simplesmente identificação com esta árvore que fica mais forte a cada ano que passa aos tormentos de velhice degenerativa. ficou bonito, rapaz!
eu quero o amor
feita ao som de 'into the wild', trilha sonora de eddie vedder para o filme de mesmo nome, me fazendo vencer preconceitos. ainda não gosto de pearl jam, mas mesmo assim, o cara é foda. bem, de qualquer jeito, fiquei bastante satisfeito com este trabalho que fiz para a fau, foi uma maldita proposta de um professor nosso que encheu demais o saco e a paciência de todo mundo acabando com tudo e com todos. não posso culpá-lo de todo, foi o responsável pela introdução do nanquin nas minhas coisas.
eu fiquei pensando nos efeitos colaterais de se ter um 'gráfico contínuo e auto-atualizável da quantidade de vida ainda disponível', também conhecido por 'lifebar' para os que alguma vez já jogaram videogame. o efeito seria indubitavelmente catastrófico. um deus espirituoso e é a forma de demonstrar a inexplicabilidade destas atitudes tão bestas que pensamos mas não temos como fazer.
este desenho eu fiz para o concurso FNAC de novos talentos. eu já tinha alguma prática com tirinhas, que são muito curtas, e mesmo assim já exigem um bocado de tato para saber como conduzir seu andamento e principalmente o momento de terminá-la. para este concurso, porém, deveríamos fazer uma história relacionada ao tema 'infinita diversidade em infinitas combinações', organizada na forma de HQ, com apenas uma página A4. com isso eu descobri o quanto é difícil elaborar um roteiro. mais, elaborá-lo pensando no que se quer dizer, como dizer, por quê dizê-lo, com que objetivo fazê-lo, e tudo isso ainda amarrado por um tema xumbrega, sem contar a parte de torná-lo desenhável e agradável, pois eu garanto que não posso desenhar tudo o que gostaria. sinto que a composição ficou bacana, os desenhos também, mas o roteiro nem de longe se constituiu como coisa amarrada e muito menos clara. tenho medo de não ter sido claro o bastante e por isso mesmo ter fugido do tema. não importa muito, na verdade, foi um exercício bastante construtivo, foi a primeira vez que peguei isso nas mãos, figurativamente falando, e ainda percebi como é fácil recair em nossos lugares comuns. minha idéia era falar de diversidade através de indivíduos, das peculiaridades não necessariamente compartilhadas de cada um, que constituem a diversidade em si, afinal, é a partir delas que temos a diferença como esta coisa tão comparável entre existências diversas. recaio naquela idéia de que só estamos sozinhos até o instante anterior à percepção de estarmos 'viajando', naquele pequeno descontrole de emendar pensamentos por proximidade. mesmo sozinhas as pessoas ainda estão acompanhadas dos representantes que fazemos delas. é esta combinação entre nós e as infinitas facetas de nossos amigos palpitando em nossas ações, imaginando o que pensariam se soubessem o que fazemos nestas horas, no estar sozinho. e o curioso é que quando penso nisso, justamente, tenho a certeza de ter passado longe de concretizar isso numa história. me parecem frases suspensas, significado duvidoso.