às vezes tudo o que preciso é cuidar de alguma coisinha com as mãos, para que minhas mãos possam cuidar de mim.
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29 de maio de 2008
mãozinhas
às vezes tudo o que preciso é cuidar de alguma coisinha com as mãos, para que minhas mãos possam cuidar de mim.
25 de maio de 2008
fotografia
estou sentado numa cadeirola de madeira esperando para ver quanto mais eu aguento as minhas lentes colando nos meus olhos até que desista de enrolar para ir para o banho porque hoje é domingo e amanhã já é segunda e eu já não estou domingo porque estou em como maldições será a minha segunda-feira. reparem como estão atreladas as formas mais usuais do ser do estar; desde quando se começa a pensar nas coisas antes delas serem, o cenário já montado em nossas cabeçorras muito antes de estarmos postos nele, de sermos aquilo onde estamos. há pouco ignorei minha mãe por querer nos mostrar como a lua - oh, olhem esta lua - estava formidável do lado de fora da janela enquanto eu assistia a qualquer baboseira na televisão das mesas de centro lotadas de pacotinhos e embalagens vazias que nos fazem pensar o quanto nós disperdiçamos de plástico todos os domingos-e-feriados-moribundos. porque o domingo já nasceu moribundo e tenho certeza de que disso vivem os analistas e psicólogos, das nossas segundas-feiras de sol enquanto no domingo vemos amigos suicidas estatelados em nossas retinas tentando explicar para os incrédulos parentes a simplicidade de se imaginar porque diabos o pobre infeliz se jogou por ai sem sequer cogitar que esta estória de antever é que corrói o estômago de toda alma que conheço. não adianta se isolar, já está tudo ai dentro mesmo (uau, está passando lá em baixo um daqueles camiões de 100 metros de comprimento e 200 rodas com vários carros-insetos-piscantes da CET em volta carregando alguma peça gigantesca para alguma obra maior que nós, como vejo em todos os domingos que antecedem segundas-feiras de sol nesta tela de computador que não é competição para a paisagem que tenho do meu lado, mas ficar admitindo isso por ai não é muito legal, senão amanhã terei que ouvir um estárá da minha mãe que queria me mostrar a lua de qualquer jeito), nosso akira. o problema é que nossa cabeça nunca está onde está nosso pescoço (ai, não vou entrar em discussões físicas sobre este assunto), está sempre em outro porém impalpável. o diabo está em perceber; enquanto não percebemos, somos fazendo, depois do plec, ai só estamos fazendo. não sei se o que estou dizendo soa absurdo, mas acho que é da minha geração a impressão do esfacelamento constante de tudo que fora algum dia legal, bem à nossa frente, só para que tivéssemos o comparativo, para que pudéssemos pensar a respeito. e pensando, o trem passou e as pessoas já entraram, o lugar que estava vazio se preencheu, da foto que se insinuou, a paisagem se moveu e o trem já vai partir. estamos parados num trem e somos os únicos parecendo não saber por que diabos estamos ai, com uma máquina na mão que significa apenas o quão lerdos fomos em tentar fotografar.
13 de maio de 2008
entrada
charutos cubanos
'não é curioso pensar que deixamos por ai um pouquinho de nós mesmo todos os dias', pensa o garoto ao ver o famoso canudo cubano que deixou na porcelana brilhante que era bem mais branca que seus próprios dentes. pisando no tapete de zebras ele percebe o quão diferente pode ser o toque do azulejo, porque na casa de sua avó o chão do banheiro era o mais frio do mundo, tão frio que subia pela privada e nela não se podia sentar, porque a madeira lhe travava os dedos e imobilizava o pinto arroxeado que nem um casulo encolhido. era inevitável pensar que a camisa cor-de-berinjela tinha a exata e mesma cor do pinto que saia da calça na hora do mijo, e isso fazia com que as berinjelas tivessem cor de pinto com frio. o piso frio do banheiro era na verdade a presença transparente da avó, porque as avós não estão de brincadeira quando se trata de crianças peladas por ai, e a frieza da tampa da privada, nos gélidos domingos de manhã de quando o trem ainda passava e as galinhas corriam pelo terreiro onde não podíamos pisar porque os galos, os galos e os perus são muito maus, podiam nos atacar, e reduziam a nada a já apenas incipiente sexualidade destes meninos de poucos anos que nem se quer imaginavam que mal podia haver num pinto roxo que servia pra fazer xixi e mais nada, horas. só que dos dedos gelados que faziam as coisas somente pela memória que tinham delas, porque era impossível que sentissem de fato alguma coisa dado o frio que lhes roubara a visão de dedo, restava sempre o mau-humor de quem acorda cedo porque tem que cagar neste frio desgracento, pois deus nos fez diferente das mulheres que têm que sentar pra tudo e por isso mesmo já estão acostumadas, nos fazendo ter que sentar só algumas vezes para destas tirar o proveito de nosso espanto e rindo de nossa cara ao ver quão engraçado pode ser um menino sentando rápido pra cagar na coragem se vencer de pronto o gelado e aguçante branco tampo de reprovação que deveria sentir só de estar pelado, tal qual a palmada que se prefere levar logo ao invés de sofrer esperando. porque tem certeza que foi o pito de sua avó que subiu do chão para a tampa da privada e deixou ela tão ruim assim.
6 de maio de 2008
as duas cabe(a)ças
eu gosto muito da aparição do pássaro júlio, mesmo. tenho um carinho especial por este quadrinho porque tem daquelas coisas como o vermelho estar no lugar certo e a quantidade de preto não ficar exagerada neste branco que na verdade é um creme desbotado, que nem pensei que ficou nos outros. ele é estreito e acho que o primeiro em que cortei parte da cena, das pernas amarelas que não servem pra nada ao chão que adoro fazer porque dá um trabalho danado de pintar e torna possível refletir sobre o desenho enquanto estou desenhando. coisas como o fato do bobão do yuri dizer que me pediria um favor, não dizer qual é e nem ligar como disse que ligaria pra dizer qual era e de fato pedir o bendito favor, daí de se pensar se fazemos bem ou mal em simplesmente esperar ou se devemos conversar com nossas falanges tuberculares, porque no frio nossos dedos ficam duros e gordos que nem mais acertam as letras do teclado direito. de qualquer forma, não sei se fiz certo ao separar este quadro do quinto (quadro), pois eles eram daqueles siameses que nascem grudados, não misturados, mas dependentes, dividiam a mesma página e por isso mesmo tinham uma relação mais interessante. o contraste de se estar junto não existe quando estamos separados; acho que vale a pena olhar e comparar os dois, existem uma série de diferenças que valem a pena, nem que seja por um segundo o trabalho de 'rolar' (odeio esta expressão) a página e dar uma olhadinha. sabe, vem de muito tempo já a minha ânsia por criar um personagem. sempre tentava, tentava mas por algum motivo eu mesmo desistia dele, talvez por inconsistência espiritual, debilidade crônica, futilidade irreparável ou a crueldade da obviedade da auto-crítica pré-punitiva. deste estou gostando. acho legal a idéia de separar a cabeça do carinha em dois, talvez porque a minha funcione assim, duro é tentar reproduzir isso em desenho.
25 de abril de 2008
galinhas de cabeça
quando algo estranho acontece, temos aquele lampejo de (in)consciência em que nossa medula espinhal (desde o começo deste ano eu decidi que 'coluna' é um nome muito besta, agora eu falo 'espinha') toma o controle de tudo, que depois nos perguntam de onde veio, porque nunca viram olho parecido, vulgo presença de espírito. certas coisas acontecem rápido demais, outras muito devagar. de qualquer forma eu me demoro, sempre, porque sou a pressa dos dias normais, já que a pressa de verdade agora não pode mais ser alcançada, não é para nós. ainda assim me surpreende a realidade quando se fotografa da imaginação e tudo o que se vê é sua cara de paspalhão no espelho, com o cabelo que jurou que ia arrumar, que nem quando, no banho, pensamos que não podemos, de jeito nenhum, nos esquecer de pegar o sabonete, pegar o sabonete, pegar o sabonete, porque senão amanhã não tomamos banho no sesc, pegar o sabonete, olha só a água empoçando no box, caramba, pegar o sabonete, eu mato o pedreiro que decidiu que era melhor sem o caimento 'não faz caimento não dona, que entope o ralo', e como poderíamos nós esquecer do caimento quando projetamos um banheiro, é o fundamental, porque, como diz o delija, sem caimento a água empoça e não evapora, o box fica úmido sem o sol e a abertura para o logradouro público e vira um viveiro de bichinhos funguentos, aqueles que combatemos com a inextimável ajuda do agente pato-purific, e do cloro que impregna o ar e corrói a lajezinha protendida que nós arquitetinhos especificamos, enchendo o pé dos velhos de rachaduras por causa de nossa ideologia peçonhenta e cancerígena. nosso semestre passado foi tenso, o delija pegou pesado, mas eu não trocaria por nada. acho que hoje vou ver um filme quando sair do banho porque estou cansado e minhas costas doem, será que tem comida, porque agora preciso me entupir de comida. de qualquer forma, o sabonete já se foi, e do pequeno despertar voltamos a ver galinhas acocoradas em nossa cabeça. porque o lucca me disse quando eu era pequeno que aquelas sementinhas de maria-sem-vergonha 'onde cai, nasce', e jogou uma delas na minha cabeça, dizendo que tinha brotado ali uma flor, mas só eu não podia ver. achando muita graça, perguntava constantemente para a minha mãe por quantas andava minha flor de cucuruto. ela deve mesmo estar lá e deve ser por isso que sempre me senti meio ridículo.
18 de abril de 2008
o pássaro júlio
o comedor de minhocas
neste terceiro quadro da estória, tinha escrito uma introdução mais ou menos assim: 'enquanto a mijada se fazia ruidosa, fui tomado pela paz de quem quer o momento cada vez mais longo, porque assim ele deixa de ser momento e pisamos naquele limiar dos encontros em que tanto faz estar desperto ou não, pois não estamos em lugar algum. mas da mesma forma em que o pré-coisa deixa de ser pré para se tornar coisa, a tensão superficial se rompe tão logo decidimos tocá-la pois não é feita de decisão, e do rebento minha visão se interrompe de onde estava deixando apenas o farfalhar das penas, e é por isso que acordamos com os olhos cheio das poeiras dos espanadores da manhã. dizem que se olharmos rapidamente para a janela, pode ser que tenhamos a sorte de ver o pássaro de onde saímos, da mesma forma como, na paúba de meus oito anos jurei ter visto o raio verde dos pôr-dos-sóis, aquele que é tão raro de se ver que só se vê uma vez na vida, e na minha sorte o vi usando os pinicantes chinelos do tom e jerry, os mesmos que perdi na outra mureta do dia do vendaval, e por isso mesmo não pude esquecer. minha mãe também viu e hoje devo perguntar-lhe se ainda se lembra do raio verde que o sol faz quando se põe e temos oito anos'. isso vem de algum tempo já, esta sensação de se ver de cima, como se um serzinho estivesse pousado na minha cabeça, com toda a naturalidade de alguém que por algum motivo não está dentro da caixa habitual pois a vê de cima, assim como a viu várias vezes sabendo que é impossível tê-la visto. ainda assim, foi ele quem se esvoaçou pequenino, me fugindo sorrateiro depois de comer todas as minhocas da minha cabeça.
13 de abril de 2008
no varal do banheiro, o monstro cerebral
no segundo quadro da minha estória de banheiros, pensei naquele momento que se segue ao isolamento, quando nos damos conta da ausência das presenças, a estrañable transparencia que fica no que não ficou. sem perceber a espontaneidade da inconsciência, automatizada na reação à sozinhez, a cabeça simplesmente pula o gancho da consciência e desliza ao encontro de pequenas distrações do azulejo que possui uma marquinha olho-de-peixe na ponta do esmalte e do puxador olhado de baixo pra cima na forma de um cogumelo inoxidável, sem graça na versão inox, mas tão surpreendente quanto possível, inocente no reconhecimento do que se encontra à nossa volta, nos olhos menos preocupados, desfocados de tanta certeza, quase infantis, deixando surpreender-se nas formas inusitadas das cercanias. o formato peculiar na cuba por baixo da pia ouviu os barulhos do além-mundo de nossas entranhas e cuspiu um borbulho de baba branca. o pequeno monstro de dentro de nós sente-se muito à vontade ao roubar nossos olhos e nos fazer ver nos objetos imediatos os devaneios tresloucados, incoerentes nas pessoas esclarecidas que temos por nós. nossas pernas depositárias se tornam pedaços amarelados e disformes de carne peluda e doentia, amarrados à nossa própria roupa limpa, amarrotada entre a querida privada dos nojos hipócritas das púdicas discrições e o azulejo dos costumes gordurentos, todos unidos pela povoada argamassa da sociedade de culpas esterilizadas à base de pato-purific, a democracia das casas de família. encostamos a roupa sem dó nos exatos lugares dos quais tentamos histericamente mantê-las afastadas em nome de produzir as mornas certezas que negaremos por toda a vida. o momento perfeito para se notar que, da janela impossível, distante metros e metros da rua ensolarada, destaca-se o penetrante e certeiro raio de sol, acudindo as polianas de dentro de nós, cegando por um instante os pensamentos de formas tenebrosas, rasgando o fio do pensamento e costurando-o nalguma outra paragem de nossos varais cerebrais.9 de abril de 2008
a gente começa a acontecer no banheiro
o banheiro é um lugar esquisito, mas talvez o conheçamos melhor que qualquer outro lugar da casa. o novo banheiro me permanece um mistério, mantém-se no limiar da normalidade mas ainda assim resiste a entregar-se por completo, como que desajustado em seu próprio reconhecimento. neste banheiro em especial, é comum me dar por desperto enquanto me surpreendo mijando sem ter vontade, e logo em seguida me cai o prazer da mijada que verte barulhenta, borbulhando a água da espera e levantando o cheiro açucarado que sucede o estalo, subitamente capotando minha consciência fugida de anteontem. dos escombros minhas pernas doem e minha vista não foca, minha boca está virgem de sono e meus calcanhares estalam conforme meu corpo se empilha de volta ao vertical. no banheiro os palpites começam a chegar, a trilha sonora já estava tocando, e, quando vejo, da minha curta noção de mim mesmo restou apenas a pressa, os compromissos, as presenças. nunca mais estarei sozinho em mim mesmo, não até que me esqueça de como foi bom ser pego desprevenido.
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