bem, este final de semestre está uma lástima, principalmente por causa de uma maquete que estive fazendo com meus sócios (mais chique falar assim, não?) até a meia noite de segunda. acabamos e fomos bem sucedidos, mas não tive tempo de desenhar nas últimas duas semanas, para terem idéia, tenho cinco idéias registradas e uma no meio do parto, todas intocadas nestes últimos dias. sendo assim, resolvi mostrar uma tirinha deste cara, o rafael sica, que me foi indicado por um outro rafael e que desenha demais. o link dele é http://rafaelsica.zip.net e vale a pena dar uma olhada, referência. agora yuri, poderia muito bem ter sido você quem desenhou esta tirinha. este cara tem estas sacadas geniais. ai está.
10 de dezembro de 2008
rafael sica
bem, este final de semestre está uma lástima, principalmente por causa de uma maquete que estive fazendo com meus sócios (mais chique falar assim, não?) até a meia noite de segunda. acabamos e fomos bem sucedidos, mas não tive tempo de desenhar nas últimas duas semanas, para terem idéia, tenho cinco idéias registradas e uma no meio do parto, todas intocadas nestes últimos dias. sendo assim, resolvi mostrar uma tirinha deste cara, o rafael sica, que me foi indicado por um outro rafael e que desenha demais. o link dele é http://rafaelsica.zip.net e vale a pena dar uma olhada, referência. agora yuri, poderia muito bem ter sido você quem desenhou esta tirinha. este cara tem estas sacadas geniais. ai está.
3 de dezembro de 2008
respiros do porão
hoje encontrei um colega meu,
estava mais velho, cansado e gordo que antes, apático e derrotado habitante do mundo corporativista cinzento, almoçando um pouco da sua juventude num prato de vidro.
estava mais velho, cansado e gordo que antes, apático e derrotado habitante do mundo corporativista cinzento, almoçando um pouco da sua juventude num prato de vidro.
27 de novembro de 2008
ensaio sobre a cegueira
24 de novembro de 2008
mini-dedicatória
influenza
porque há vezes em que não há tanto mal em escorrer os narizes e doerem as costas, arranharem as gargantas e tossirem as tripas, estar em casa paga com folga os interstícios da gripe. voltei no sábado à noite do campeonato que reúne a nata do suco do lixo da universidade de são paulo, e já no caminho, soube que estaria doente nesta noite mesmo. missão cumprida, pensei, já que desde terça-feira arrastava o adiamento da doença para depois da viagem, com doses cavalares de vitamina C, aquela que garantiu a cobiçada longevidade de linus pauling, ainda que tão questionada quanto almejada por uma seita de céticos e sanguessugas. bem, tempo em casa é tempo livre, e tempo livre, ainda que roubado do tempo de dever, é tempo de fazer o inevitável. foi estranho passar 4 dias sem sequer pensar em desenhar, curiosa a influência do meio em que nos envolvemos. vai ver o diabo vestido de top e fio-dental vermelhos, chifrinho brilhante e tridente enfiado no rbo são inibidores de criatividade. vá saber. quem vai ao bife sabe do que falo, ainda que torça o nariz ao lembrar da baleia encalhada numa carcomida piscina regan de dois anos atrás, a se refrescar na água quente e turva de protetores solares alheios, com uma bendita canequinha do usp recicla jogando água sobre as vastas costas que mais pareciam uma encosta inteira. gripe por gripe, melhor estar gripado em casa.
23 de novembro de 2008
18 de novembro de 2008
16 de novembro de 2008
15 de novembro de 2008
13 de novembro de 2008
a queda
back to black
a consciência vermelha de gil
7 de novembro de 2008
no bico do corvo
fazer piada com os pessimistas e mau-humorados é uma forma de enfiar uma faca em meu próprio peito, figurativamente falando, e de dar aquela torcidinha de quando pensamos 'puxa, é uma tremenda idéia para não comer tanto chocolate colocar a barra longe do sofá e se forçar a levantar cada vez que quiser um pedaço', pois, quando estamos de bom-humor, estas idéias geniais são ótimas e até sensatas. mas a idéia aqui é alfinetar meu lado resmungão e mal-criado, mau-humor-em-água-fria, não-me-provoque-que-eu-lhe-parto, quero-atenção-mas-nunca-admito e váááários outros sentimentos semelhantes. em casa tenho repertório infinito de pés-na-covices, basta parar de falar um pouco e se prestar a ouvir milongas e delongas. bem, melhor não me estender muito senão acabo tocando no mau-humor dos outros, não só no meu.
3 de novembro de 2008
catedral de reims
31 de outubro de 2008
porque há dias em que cozinhamos o mau-humor em água fria até este estar encorpado o suficiente para entalar em nossa garganta e ficar com o dedo no disjuntor, pronto a botar a chave abaixo e desligar o conector cerebral que mede o tato social e a simpatia. aliás, palavra tenebrosa e proibida para aos desavisados que se derem ao direito de questionar a verdade universal e irremediável de um dia ao lado do famigerado. as pessoas não entendem que o mau-humor foi feito para afastar os inconvenientes de nós.
distúrbio de atenção
eu juro que quando imaginei esta tira ela estava engraçada. não sei se era o jeito como ela falava, a voz meio esganiçada daquelas pessoas que se têm em alta conta, o jeitão meio 'guardo o quanto sou foda para mim mesmo porque os outros não o merecem', a perspectiva de alguém que anda muito sozinho, e por isso mesmo aprendeu a rir de coisas estranhas. minha mãe e meu irmão podem comprovar este fenômeno, pois, quando foram me resgatar em paris, encontraram uma figura magricela que falava engraçado e ria de coisas aleatórias sem motivo aparente. andar sozinho nos deixa pensando esquisito. enfim, percebi o quão relativo é o senso de humor, mais, o quão intrincado este está à narratiava. neste caso, o humor é a narrativa, é a forma como a coisa se dá. no caso, não se dá. de qualquer forma, é curioso pensar que pessoas podem pensar coisas absolutamente diferentes à partir de uma mesma cena... eu provavelmente estaria pensando 'uau, então é assim que é o fígado'.
29 de outubro de 2008
pego no pulo
o bicho do pau
eu tenho a certeza de que, daquelas noites infindáveis em que nos enfiamos nos buracos da labuta, no gume da navalha abrindo espaço no objetivo único e inquestionável; o fim por ele mesmo. cavando fundo demais, porém, despertamos dos desfiladeiros abissais, das congregações de irritamentos e desgraças ribombantes, o ódio irritante, o provocativo e sádico punimento, a pena por tamanho descaramento, o suplício final, no respiro final, na força final, no final do fim, no finalmente, no passo a mais, aquele que são duas teclas ao invés de uma, o ctrl+qualquer coisa que vira ctrl+duas coisas e ai ele aparece. não podemos acreditar, mas é viva e consciente a força punitiva, alguns intitularam-na 'karma', não necessariamente trabalhando ao seu lado, não necessariamente boa, mas existe a entidade inteligente dos paus no computador. ah se existe.
20 de outubro de 2008
violência gratuita
eu esqueci de postar esta tirinha no blog, ela já estava no flickr desde sexta-feira, e na verdade foi feita antes da anterior. aqui eu me senti tentado, depois de ficar a me ludibriar com a lustrozidade das nucas de meus peçonhentos inimigos pessoais. rapaz, como são tentadoras estas acumulações de carne arredondadas semi-cobertas por cabelo, é uma vontade de descer aquele sonoro pescotapa estalando em ecos pelo corredor lotado, tão delicioso que todos incoscientemente se viram para ver quem foi o autor da façanha, até alma santa perde a calma do universo espiritual se vítima de tal desaforo. deus uma vez mais desceria à terra sorridente para comemorar cada pescotapa bem dado. de qualquer forma, ultra-violence é algo inacreditavelmente bom de se desenhar, ainda que seja bastante difícil.
um vício por outro
bem, esta é para o yuri que, milagrosamente depois de ter começado a ir a pé para a aula e 'à todos os lugares', como ele gosta de dizer, começou a sentir que se ficasse sem andar dormia mal, comia menos, cagava pior, além de ficar sem o maravilhoso 'soma' tão descaradamente produzido dentro de nós mesmos. endorfina é o bicho!
15 de outubro de 2008
7 de outubro de 2008
rotavírus
Trabalho e Redenção
acabou tendo muito mais sangue do que eu imaginava ai nesta cena, a ordem ficou invertida, não sei exatamente por quê. imaginava começar com as ferramentas na esquerda, o cara sentado em frente à televisão e por fim a parede pintada com o sangue. o cérebro como oferenda. ainda assim, nada como fazer o trabalho sujo de arrancar o cérebro para assistir televisão, uma tremenda recompensa.
o medo da sombra
1 de outubro de 2008
centenária
pois é, eis que estava eu em casa, bordoando com umas canetas superfluosidades em papel quando irrompe em meu quarto minha mãe com uma tábua de madeira e um sorriso que unia as orelhas. não precisei perguntar para que diabos seria aquilo, pois o marcinho já apareceu gritando incoerências desde a porta de casa: 'adivinha o que o vovô pediu para você fazer?!' no que minha mãe me mostrou um bilhete inacreditável no qual constava em azul-safira a palavra centênária escrita em caligrafia oscilante. 'o que é isso?', 'seu avô pediu para que você escrevesse centenária nesta placa, para ele pendurar na árvore lá no sítio'. 'hein?!', 'pois é, ele quer colocar isso pendurado lá, para o aniversário dele'. 'não seria interessante escrever árvore centenária ao invés de somente centenária, eu perguntei a ele quando ele me deu o papel, não, ele me respondeu, não seria óbvio demais ver pendurada em uma árvore uma placa escrito árvore centenária?'. o riso foi incontrolável, mas o pedido foi tão engraçado que decidi fazer a tal da placa, não importava mais já ser para lá das onze da noite. fui para a lavanderia pintar a placa, minha mãe, não por menos, tratou da documentação fotográfica deste acontecimento histórico. até que ficou bonitinha a placa, melhor ainda vai ser vê-la pendurada na tal da árvore com os velhinhos passando embaixo. podia ser óbvio para o meu avô que aquilo é uma árvore, dai não ser necessário repeti-lo na placa, mas salta-nos bastante à vista o fato da tal da árvore ser centenária, pois é simplesmente enorme e muito velha, mas tudo bem. prefiro estes delírios que devem ser algo de projeção, de auto-reconhecimento ou simplesmente identificação com esta árvore que fica mais forte a cada ano que passa aos tormentos de velhice degenerativa. ficou bonito, rapaz!
29 de setembro de 2008
eu solto o ar no fim do dia
dia após dia
eu quero o amor da flor de cactus,
ela não quis.
eu dei-lhe a flor
de minha vida,
vivo agitado.
eu já não sei se sei
de tudo ou quase tudo
eu só sei de mim, de nós,
de todo mundo.
eu vivo preso à sua senha,
sou enganado,
eu solto o ar no fim do dia,
perdi a vida.
eu já não sei se sei
de nada ou quase nada,
eu só sei de mim, só sei
de mim, só sei de mim.
o patrão nosso de cada dia,
dia após dia
o patrão nosso de cada dia,
dia após dia
o patrão nosso de cada dia,
dia após dia
o patrão nosso de cada dia.
'o patrão nosso de cada dia'
secos & molhados, lindamente.
tal qual minha presença em minha casa,
que no lugar de ser do nascer do sol
até o morrer do sol, é do já morrido sol
até o nascer do sol, e tudo de novo e de novo.
é dia após dia.
22 de setembro de 2008
trabalho forçado
feita ao som de 'into the wild', trilha sonora de eddie vedder para o filme de mesmo nome, me fazendo vencer preconceitos. ainda não gosto de pearl jam, mas mesmo assim, o cara é foda. bem, de qualquer jeito, fiquei bastante satisfeito com este trabalho que fiz para a fau, foi uma maldita proposta de um professor nosso que encheu demais o saco e a paciência de todo mundo acabando com tudo e com todos. não posso culpá-lo de todo, foi o responsável pela introdução do nanquin nas minhas coisas.
19 de setembro de 2008
lifebar
eu fiquei pensando nos efeitos colaterais de se ter um 'gráfico contínuo e auto-atualizável da quantidade de vida ainda disponível', também conhecido por 'lifebar' para os que alguma vez já jogaram videogame. o efeito seria indubitavelmente catastrófico. um deus espirituoso e é a forma de demonstrar a inexplicabilidade destas atitudes tão bestas que pensamos mas não temos como fazer.
10 de setembro de 2008
concurso fnac
este desenho eu fiz para o concurso FNAC de novos talentos. eu já tinha alguma prática com tirinhas, que são muito curtas, e mesmo assim já exigem um bocado de tato para saber como conduzir seu andamento e principalmente o momento de terminá-la. para este concurso, porém, deveríamos fazer uma história relacionada ao tema 'infinita diversidade em infinitas combinações', organizada na forma de HQ, com apenas uma página A4. com isso eu descobri o quanto é difícil elaborar um roteiro. mais, elaborá-lo pensando no que se quer dizer, como dizer, por quê dizê-lo, com que objetivo fazê-lo, e tudo isso ainda amarrado por um tema xumbrega, sem contar a parte de torná-lo desenhável e agradável, pois eu garanto que não posso desenhar tudo o que gostaria. sinto que a composição ficou bacana, os desenhos também, mas o roteiro nem de longe se constituiu como coisa amarrada e muito menos clara. tenho medo de não ter sido claro o bastante e por isso mesmo ter fugido do tema. não importa muito, na verdade, foi um exercício bastante construtivo, foi a primeira vez que peguei isso nas mãos, figurativamente falando, e ainda percebi como é fácil recair em nossos lugares comuns. minha idéia era falar de diversidade através de indivíduos, das peculiaridades não necessariamente compartilhadas de cada um, que constituem a diversidade em si, afinal, é a partir delas que temos a diferença como esta coisa tão comparável entre existências diversas. recaio naquela idéia de que só estamos sozinhos até o instante anterior à percepção de estarmos 'viajando', naquele pequeno descontrole de emendar pensamentos por proximidade. mesmo sozinhas as pessoas ainda estão acompanhadas dos representantes que fazemos delas. é esta combinação entre nós e as infinitas facetas de nossos amigos palpitando em nossas ações, imaginando o que pensariam se soubessem o que fazemos nestas horas, no estar sozinho. e o curioso é que quando penso nisso, justamente, tenho a certeza de ter passado longe de concretizar isso numa história. me parecem frases suspensas, significado duvidoso.
29 de agosto de 2008
11 de agosto de 2008
10 de agosto de 2008
o terreiro
o terreiro lá de casa não se varre com vassoura,
varre com ponta de sabre,
varre com metralhadora.
no melhor de geraldo vandré.
varre com ponta de sabre,
varre com metralhadora.
no melhor de geraldo vandré.
8 de agosto de 2008
arco-íris
é porque quando passamos sobre aqueles arco-íris que moram no meio da rua, eles grudam na roda da sua bicicleta e ficam rodando com você.
30 de julho de 2008
27 de julho de 2008
exibição em contexto
esta foi daquelas coisas que se começa e só justamente por ter começado é que se termina. gostei do primeiro e segundo quadros, o terceiro, e portanto a conclusão da estória, não gostei, me pareceu meio bobo, embora por isso mesmo me pareça válido publicar. a idéia era passar um ponto de vista delicado em relação a uma destas situações teoricamente normais.
a consciência de gil
25 de julho de 2008
23 de julho de 2008
movimentos
meu amigo cacá já dizia, movimentos pélvicos, não existe outra razão para pagarem academia.
21 de julho de 2008
salto
é que nem quando se bebe da muringa,
porque nem sempre lembramos que a
água vem sempre com um gostinho de barro.
porque nem sempre lembramos que a
água vem sempre com um gostinho de barro.
6 de julho de 2008
um dia na terra
era velha, a princípio não tinha nada demais, às vezes deixo minha mente preconceituosa voar na frente para eu ver até onde vai e então decidir se preciso ou não reprimí-la, era velha e muito gorda, usava uma calça horrenda daquelas oncinhas fake muito zoadas que não sabem se são onças ou zebras num tom meio bege daquelas capotas de vinil de carros muito antigos em baixo relevo. aposto que tinha a mesma textura grudenta de borracha velha, aquelas calças que são pouco elásticas e por isso mesmo estão forçadas ao extremo em fazer caber um círculo obtuso e monstruoso dentro de um pobre e coitado quadrado indefeso, bem, certo não pode dar. mas entrou na minha frente esta velha repugnante, aparentemente apenas repugnante, e bem na minha justa frente da fila do prato rápido do sesc pompéia, minhas experiências de comer olhando para os lados de quintas e sextas-feiras antes do montanha. ela não ia entrar, mas eu pensei que horror seria se ela entrasse e ela se desviou de seu caminho desterrado para cumprir esta função que tão descaradamente desejei que ela não ocupasse. e lá ela entrou, depois de ter sido chamado de sérgio e xavecado por um oreste desprezível, eu entrava na fila atrás de um balão murcho e pesçonhento, apenas meio cheio do budum de não se tomar banho há vários meses, somado às dobras rançosas de uma manteiga que já saiu da validade e foi deixada ao sol e à sombra por diversas vezes, assim para recriar o leite sulfuroso das poças de chorume que vazam daqueles sacões pestilentos das baladas mais badaladas, do vômito das menininhas anoréxicas que vomitam seus próprios estômagos, era a velha do lodo. porque nas caixas de passagem das fossas sépticas existe um lodo que se acumula no meio dos seixos do filtro, um lodo que é merda velha, e que se acumulava nos poros de um cu peludo que subia até as metades das múltiplas costas que lhe escorriam do pescoço. a velha era o cóccix em pessoa. era o sebo, era a mulher que paria aranhas. a fila ficou com um furo, um buraco que contrariava sua própria lógica, pois entre eu e a velha tive que criar um abismo imune ao cheiro e à ânsia, à aversão mais primária que podemos ter: aparência e cheiro. e esperavam que eu almoçasse depois disso! a velha tinha barba, pêlos mais grossos que os meus saindo-lhe pelas orelhas, perfurando-as como piercings primatas, trazendo para fora os flocos de cêra tal qual pólen esperando a fertilização de tão habitada flora. na fila as pessoas estranhavam o buraco, me faziam caretas e eu tratava de me esconder por trás de meus recém comprados óculos escuros, ainda estou me acostumando a usar estes ai, tentando fazer com que o filtro marrom das lentes filtrasse também o odor de cu de babuíno que tinha esta velha de bunda azul. cheguei ao caixa, súbita felicidade, a velha seguiu adiante furando a fila com sua barriga dobrada para dentro da calça, das dobras fazendo um bolso, para quando estiver pelad poder enfiar a mão nos bolsos, semeando ainda mais repulsa enquanto eu me atinha a uma inexplicável calma em não achar meu cartão na hora de pagar, ao ver diversas pessoas servindo de muralha ao meu mais inescrutável mal. porque tem dias em que os demônios saem do inferno para dar uma voltinha e se aproximarem mais de seus pecadores, e com dois destes cruzei num só dia, pois desde sempre uma coisa depende da outra.
do pútrido
estavamos eu e minha bicicleta, o maior atrativo de epopéias dos meus périplos asiáticos de ultimamente, subindo uma piramba lá perto de casa, eu vinha da fau com aquele barulhinho tica-tac-rrrrrrrr de quando seu câmbio está na verdade é bem fodido, 'isso ai não tem mais jeito, bixô', disse o honorável luciano, cara que menos cobra pelo melhor serviço que conheço quando de manhã passei lá na casa-oficina dele para ver que diabos tinha acontecido com o 'motorzinho' destas bicicletas de hoje em dia. 'isso ai já era, quem sabe eu possa encontrar um novo para você'. 'por favor', disse com aquela sensação dos domingos à noite, que são na verdade segundas-feiras de sol fantasiadas de depressão e bolinhas ingeríveis de desespero. ia ficar na mão, certeza. 'não, olha, pode andar com isso ai deste jeito que pior não fica', 'certeza?', 'certeza, sabe como é, não posso garantir, pode estourar daqui a cinco metros ou você pode voltar aqui daqui a um ano com o treco ainda rodando'. 'ah', eu disse, então beleza, vou seguir barulhando por ai. quinta-feira foi um dia de andar devagar, portanto, curioso, porque desascostumamos a andar devagar, pelo menos eu, e curioso como devagar estamos mais suscetíveis aos outros... bem, lá ia eu devagarando na minha piramba, barulho, barulho, barulho, todos me passando, paciência, se eles soubessem que só estou devagar porque andei rápido demais ultimamente, mas que diferença faz, penso em seguida, estou devagar e pronto, subindo e subindo. de repente um carro me acompanha no meu vagar, tem um senhor dentro, parece me reconhecer, é o oreste, pensei, nosso professor da pena, que droga, é um cara que é ruim, sinto pena, e pena é ruim porque vem de uma coisa de se reconhecer no fracasso alheio. bem, prefiro pensar que ele apenas tinha me reconhecido, reduziu a marcha e me alcançou, baixou o vidro, não era ele. 'por acaso você que é o sérgio?' acho que minha cara de espanto respondeu à pergunta dele. 'putz, é muito parecido com ele'. fiz cara de quem não está muito interessado, disse que não era mesmo este tal de sérgio, ele acelerou o carro e pensei que era só mais um daqueles encontros aleatórios de gente que não se reconhece direito. que azar, o carro reduziu de novo e eu o alcancei. previ no sorriso do infeliz o pior, sabemos das coisas um pouco antes delas acontecerem, sempre foi assim comigo, sempre segundos depois do prazo para uma reação, sabemos, apenas, mas não adianta mais. do vidro abaixado vejo o falso-0reste dizer: 'você é muito gato, cara'. pronto, explosão, merda no ventilador, por que diabos eu mereceria ouvir uma merda destas de um merda destes. o restante do meu caminho lerdo não existiu por causa do incômodo gerado por tal importúnio. não é coisa que se diga, senti-me como uma garotinha de sete anos andando pela rua quando gordos oferecem-lhe doces repugnantes achando que existe alguma coisa de atraente em ser um velho punheteiro. cada uma que temos que ouvir, sei que preciso consertar minha bicicleta o mais rápido possível, esta coisa de ir mais devagar só fode!
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